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Nas coxas

Meu amigo Melo do blog http://afternonsense.blogspot.com/ me fez uma pergunta difícil de ser respondida sem algumas paixões: “Tudo aqui sempre será feito nas coxas?”.
A expressão “nas coxas” surgiu no Brasil colonial. As telhas para cobertura de casas tinham como moldes as coxas dos escravos, obviamente os escravos tinham estaturas diferentes, as telhas saíam de vários tamanhos e quando colocadas nos telhados nunca encaixavam direito.
Então “nas coxas” é algo mal feito, torto, como dizemos aqui na Bahia feito a “ facão”, improvisado, sem jeito, feito para enganar ou simplesmente para ser refeito como uma escola, embora bonitinha, erguida com material de 5ª.
Se refazendo em mediocridade o Brasil oficial, meu caro Melo, vai nos vampirizando, nos oferece felicidade nas coxas, segurança? Nas coxas? Respeito à diversidade? Nas coxas, educação? Nas coxas, código florestal? Nas coxas.
Quando os barões da cana de açúcar do nordeste migraram para o sul, levaram com eles educação em excelência, muita grana, indústrias, estruturas sociais e políticas mais progressistas. No nordeste ficou o flagelo social, o coronelismo, os crimes de mando, a truculência e um povo sociologicamente feito nas coxas.
O Brasil feito nas coxas ajudou a construir o Brasil que é apresentado aos olhos do mundo. Copacabana é a “Princesinha do Mar”, a Av. Paulista “ O coração financeiro do país”. Só para termos uma ideia em documento oficial do Ministério da cultura diz que 90% dos recursos para cultura do país ficam entre as cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo e esse 90% é consumido por 3% de agentes culturais. Eu? Cidadão nas coxas.
E a pergunta do Melo: “será sempre assim?” Como escrevi essas mazelas são frutos do Brasil oficial, mas há um país que vai acertando suas coxas independente de ações oficiais, um país que produz cultura, se moderniza em ações sociais e políticas independente de governos, um país que reage a barbaria institucionalizada e esse país não aceita gozadas nas coxas.
Foram identificados em São Paulo cerca de dezessete grupos neonazistas, ou melhor, neo parasitas. Esses grupos dizem serem defensores de uma “raça” limpa, e para limpar a raça fazem cassadas aos gays, nordestinos, negros e deficientes físicos.
Na cidade que é o “motor” do Brasil, que se orgulha de ter a melhor polícia, judiciário, ministério público, o maior número de teatros, os melhores índices educacionais esses grupos neonazistas agem espancando e matando, a AV. Paulista se tornou palco de infâmias e desrespeito as pessoas.
E me digam, como uma estrutura jurídica e de polícia de um estado tão poderoso não consegue acabar com meia dúzia de moleques e covardes como esses neoparasitas? Estrutura oficial preconceituosa e covarde, estrutura nas coxas.
Sinto asco de um país no qual a depender o lugar que estejamos podemos ser mortos por causa do nosso sotaque, pela nossa sexualidade ou pela cor da nossa pele. País nas coxas. Pior que os neoparasitas é a benevolência com que são tratados pelo sistema judiciário do país, como um miserável que jogou dois adolescentes do metrô em São Paulo e está solto por conta de um haber corpos do STF.
Então, meu amigo Melo, para mim é isso, O Brasil oficial quer sempre nossas vidas nas coxas, mas o país paralelo segue firme e forte, o país que quer gozar dentro, abraçar, sem medo de pegar o vírus da estupidez e arrogância, o país livre das telhas fabricadas sobre medida para nunca nos proteger da chuva e incompetência presumida de seus ilustres senhores de engenho.
ediney-santana@hotmail.com
http://edineysantana.zip.net/
Escrito ao som de “Ladeira” de e com Neto Lobo e a Cacimba























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