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Jornais, papéis e canções

Minha vida sempre esteve ligada de uma maneira ou outra aos jornais, não ao jornalismo. Jornais o objeto tátil feito para durar em muitos casos uma manhã, bem como também as canções, canções em que a palavra se impõe a música, música como segundo plano.
Saía pelas ruas de Santo Amaro gritando: Olha o jornal tenho Atarde e Tribuna! Até hoje quando vejo crianças vendendo jornais fico emocionado porque vejo nelas a criança que um dia fui.
Passava horas na Praça do Rosário com alguns amigos batucando canções da Legião Urbana, aquela prosa em canção era a  medida exata para todas nossas inquietações. Estávamos nos anos de 1990, claro sonhava mudar o mundo a começar pelo Centro Educacional Teodoro Sampaio, as canções da Legião eram o conforto ideal, união duas coisas que gosto: literatura e música.
Meu pai tinha um MotoRádio, como aquele velho rádio a pilha comecei a gostar de música. Ligado em estações AM as vozes ouvidas eram de: Frankito Lopes (o índio apaixonado), Paulo Sérgio, Sérgio Reis, Amado Batista, Barrerito e Trio Parada Dura e um monte de cantores que nunca se apresentavam na televisão, nem mesmo no programa Silvio Santos no qual tudo que não aparecesse na Globo nele teria lugar garantido nos dias de domingo.
Esses artistas foram a trilha sonora da minha infância. Todos tristes , sempre saudosos de um “amor perfeito”, porém impossível de ser vivido, herdei deles o gosto por melodias triste e canções saudosistas. Anos depois quando tocava em uma Banda, “Flor Marginal”, meus amigos diziam que era muito “Depré” e sem graça... Pobre Frankito Lopes, não há espaços para vozes delicadas e canções tristinhas de amores impossíveis.
A literatura me chegou pelos jornais que vendia, em especial pelo Caderno 2 do Atarde e é claro pelas revistinhas de Maurício de Souza, Chico Bento e sua turma, adorava Penadinho e seus amigos cemitérianos.
Tudo isso misturado foi ajudando a formar minha personalidade, às vezes afetiva em demasia e outras extremamente retraída como as canções pesarosas do Paulo Sérgio. Os heróis cantores da minha infância eram trágicos, exagerados, alguns biriteiros, noturnos e criativos quando o assunto era cantar suas tragédias sentimentais.
Hoje tenho um blog, jornal virtual. Como na minha infância “vendo” notícias, com a venda de jornais ganhava R$ 15 centavos por cada um vendido, no blog ganho alguns comentários. Escrevo minhas alegrias e angústias pessoais. Reflito para, além disso, falo do mundo como o vejo e sinto.
Espero que o blogspot nunca acabe, é uma boa ideia. Se acabar que seus arquivos não sejam apagados, aqui é um museu- biblioteca na qual parte considerável da humanidade pode deixar suas marcas, pode fazer parte da história cultural, tirando de alguns gênios a exclusividade de falar ao futuro. Aqui cada pessoa pode deixar um registro mais exato de suas emoções e paixões.
A internet faz o papel hoje das rádios AM, mostra para todo mundo os que não tocam na TV e nem sai nos jornais do sistema informativo oficializado. O Brasil se revela em suas grandezas, na simplicidade do seu povo e, sobretudo no melhor que temos: o espírito de um povo a se reinventar sempre nos abraços dados, no amor conquistado, na alegria de ser sempre o país que se iguala em seus contrastes.
ediney-santana@hotmail.com
http://edineysantana.zip.net/
Escrito ao som de “Love is many splendored thing", com Franck Pourcel













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