Pular para o conteúdo principal

Quando não morrer

Se do outro lado existir algo, coisa que duvido, quando morrer sentirei saudades dos fins de tarde em chuva preguiçosa os quais fico quietinho no meu quarto ouvindo música bem baixinho.
Adoro finais de tarde em dias cinza, com essas chuvas que nos dão preguiça na alma, parece nos ninar a natureza.
Sentirei saudade de sentar nas escadarias da igreja da Purificação nos finais da tarde, adoro olhar as pessoas de volta do trabalho quando trazem embrulho de pão nas mãos.
Sentirei saudades da saudade que sinto da minha velha vó torando café no quintal, de como abraço de vó é bom, do cheiro da nossa pobreza que nunca foi miserável.
Saudades das coisas invisíveis: amor, ternura, gentileza, carinho e solidariedade. Essas coisas não devem existir além vida, seriam inúteis por lá.
Quando morrer sentirei saudade das noitadas inocentes, dos anos de 1990 nos quais éramos virgens e comíamos todas as mulheres entre nossos dedos santificados por um pecado criado por deus para nos alegrar os dias.
Fui um gauche sem muitos porquês. Quando morrer sentirei saudades dos encontros comigo mesmo por vezes ásperos, por vezes divinamente solidários.
Não deixarei corações em melancólica saudade, nem dividas, tão pouco fortuna deixarei, ficará do que fui um punhado de versos maus feitos e esquecidos nas urgências dos dias.
Quando me for se encontrar com deus lhe direi: não me mande de volta, soube que na lua estão precisando de almas penadas, me mande para lá.
Se encontrar com o diabo pedirei a última cerveja em um copo plástico sujos do botam da diaba mais gostosa e lhe direi: sou quase um virgem me afoga em diabruras antes que o diabo me mande de volta à terra.
Quando morrer quero meus ossos junto dos ossos do meu pai, meu amado pai e na lápide escrito: aqui jaz dois bons corações um em prosa outro em versos.
Quando morrer peço, meus amigos, não deixem que façam rezas, comprem um caixão sem cruz na tampa, não deixem colocar flores sobre mim, me vistam com camisa preta de mangas longas, calças Jens e tênis, não deixe colocar gravata, essa coisa honrosa parece ser a última moda para defuntos.
Quando morrer sentirei saudades de tantas coisas, dos meus eternos sonhos, da paz que sempre quis e nunca tive, da alegria mentirosa e sempre fingida dos meus lábios, do meu bom coração estupidamente comunista. Só mesmo um coração estúpido para ser pobre e comunistas,há estupidez maior em querer dividir o que não se tem?
Quando morrer sentirei saudades das longas conversas com minha mãe, única amiga que tive nesta minha vida improvável.
Não me arrependo de nada, estive em tudo como quis e sobre tudo como não quis. Vivo ilhado em meu coração, só saio de casa para ir trabalhar, ver minha filha ou ir ao Bistrô, não sinto saudades de estar entre gente em demasia.
Dias de sol, contradições e um coração afogado em tantas paixões, onde estão meus amigos? Saudades do Cleu, Boris, Del, Lindo, Marquinhos, Babo, Dado, Dinho, Sérgio, João Bolinha, Lulu, Goés, Gabriely... São poucos e tão meus...
ediney-santana@hotmail.com
http://edineysantana@hotmail.com
Ps- Artigo escrito ao som de “Meus Bons Amigos” com Barrão Vermelho.
PS2-A foto é da igreja da Purificação (em Santo Amaro-BA), ao final da tarde sempre sento nas suas escadarias a olhar toda beleza do tempo.













Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Jantar e crime

Na delação: “em um jantar acertamos o valor da propina”. Quantos crimes são articulados em mesas fartas e jantares de luxo? Ou melhor, em palácios? É mórbido e tragicamente irônico que pessoas sentam-se em uma mesa cheia de comida para acertar crimes que vão levar à fome e morte tantas outras pessoas. Nos últimos dias, com o avançar da Operação Lava Jato e as delações premiadas, tomamos consciência da naturalidade a qual crimes são articulados, como pessoas sem sentimento algum, roubam e matam com se estivessem apenas trocando ideias entre amigos e parentes sentados em uma mesa. Paralelo a comilança criminosa, esses mesmos agentes do Estado tramam reformas administrativas que vão impactar a vida dessas mesmas pessoas já roubadas por eles. É preciso, sim, diminuir os gastos públicos, mas não se pode sacrificar quem já não tem quase nada. Nossa saúde e segurança pública são máquinas de triturar gente, gente pobre e tempere isso com o absurdo da reforma da previdência que iguala pela pe…