Pular para o conteúdo principal

Breve presente

A brevidade do presente assusta. O único tempo que temos é o presente e quase nem o vivemos. Ainda pouco éramos crianças a brincarmos na inocência dos dias. Ainda ontem a emoção do primeiro amor, o susto da primeira menstruação e a alegria ou decepção em descobri que Papai Noel era todo o tempo o nosso pai e não um velhinho morador de um lugar mágico no Pólo Norte.
Lembro quando morávamos no prédio da Leste, em uma madrugada, vi meu pai colocando um carrinho em cima da minha sandália, era noite de natal, agudas saudades do tempo em que momentos felizes pareciam eternos.
Certa vez fui à casa de uma conhecida minha, ela me mostrara inúmeras fotos, todas cheias de um brevíssimo presente, repletas de histórias quase esquecidas, tocadas pelo cinza do tempo, no amarelar das emoções que sempre findam.
Se contarmos nossas vidas de dez em dez anos, o presente fica ainda mais assustadoramente breve. Um dia perguntaram a Édith Piaf que conselho era daria para pessoas, mesmo sofrendo de todas brevidades possíveis respondeu: amem, amem e amem. Talvez tenha pensado a senhora dona de uma voz tão dolorida que só o amar entre amores pode vencer as brevidades, será?
Nesta vida brevíssima, apenas também amo, muitas vezes em silêncio amo. Amo as coisas invisíveis e os momentos de sorrisos breves em ternura, amo profundamente tudo que em sinceridade me parece valer um instante do meu tempo de vida.
Se o tempo nos consome em momentos tão breves isso nos diz o quanto cada instante deve ser vivido em singular intensidade. Gastar energia em coisas fúteis ou zelar por corações engessados para o amor que não seja espelho de si é de certa maneira tornar o breve que somos mais infinitamente curto.
Ps- Escrito ao som de “Charlie Brown” com Benito de Paula








Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Jantar e crime

Na delação: “em um jantar acertamos o valor da propina”. Quantos crimes são articulados em mesas fartas e jantares de luxo? Ou melhor, em palácios? É mórbido e tragicamente irônico que pessoas sentam-se em uma mesa cheia de comida para acertar crimes que vão levar à fome e morte tantas outras pessoas. Nos últimos dias, com o avançar da Operação Lava Jato e as delações premiadas, tomamos consciência da naturalidade a qual crimes são articulados, como pessoas sem sentimento algum, roubam e matam com se estivessem apenas trocando ideias entre amigos e parentes sentados em uma mesa. Paralelo a comilança criminosa, esses mesmos agentes do Estado tramam reformas administrativas que vão impactar a vida dessas mesmas pessoas já roubadas por eles. É preciso, sim, diminuir os gastos públicos, mas não se pode sacrificar quem já não tem quase nada. Nossa saúde e segurança pública são máquinas de triturar gente, gente pobre e tempere isso com o absurdo da reforma da previdência que iguala pela pe…