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Encontro com Gabriel García Marquez e Jonas

 Ele bateu na minha porta, quando abri me devorou de uma bocada só. Dentro do seu estômago pude ouvir-lo ainda resmungar que era para o meu próprio bem.
Lembrei do livrinho de histórias bíblicas, Jonas preso dentro da baleia, Deus queria provar para o Diabo que fé era fé e se fosse necessário trucidaria  o pobre Jonas dentro do estômago da  tal baleia, abençoada por ele e encantada pelo Diabo.
Sempre achei estanho as pessoas dizerem: ruim com ele, pior sem ele... Nada que seja ruim deveria deixar saudades, mas as desgraças ou desencantos do momento fazem às vezes um diabo renascer anjo em nossas lembranças... Porcas lembranças nascidas no atoleiro irremediavelmente medíocre do único tempo possível – presente.
Se fosse a natureza criaria alguns decretos: 1- proibido sentir saudade das coisas boas ou ruins, porque saudade é sempre falta e falta é sempre ruim. 2- é proibido ter no outro a alegria que seu próprio coração não consegue sentir. 3- fica proibido tocar violino, violinos sempre me deixam triste e como sou a natureza decreto o que quiser. 4- fica decretado que amor bom é amor sem identidade, nascido em troca de olhares no ônibus coletivo, na prateleira de uma livraria, ao por do sol cheio de contradições medievais. Fica estabelecido em decreto que todo mundo tem direito a um dia de plena felicidade e flores por todas as calçadas...
Lá fui eu dentro do seu estômago, uma úlcera me sorriu e disse: nasci depois do último rancor, salpicada por uma saliva seca, mas tudo bem... Vivo ninguém sai dessa porra mesmo. Senti náuseas e um gosto da cal na boca, vontade de escrever uma carta, mas não havia caneta, papel e tão pouco endereço para leitura.
Escrever a alguém... Lembrei da professora Évila (UFES) um dia disse: Ediney, quem escreve escreve para o mundo. Fiquei pensando para quem escrevo? Para a Elisa, a gostosona de medicina, que nunca notara minha existência? Deinha a menina da limpeza que “namorei” dois anos e me trocou pelo Rafa , segurança do modulo de exatas? Em que diabólico coração haveria um mundo para receber cartas minhas? Tava, tô f.... Do...Tenho cartas mas não tenho mundo, a merda que o mundo é sempre outra pessoa.
Ali naquele estômago eu era a náusea. O estômago até que era feliz, tinha um arco-íris e galhos de arruda, uma maldita pizza azeda... Mas a certeza da náusea me deixava roxa, azul e crepom de ausência simultâneas do que era e não notara.
Por que diabos achamos: felicidade boa sempre ficou no passado? Foda-se!!! Meu doce ou doce entre sal ta aqui agora a ri em sândalos e pêssegos, talvez encontre entre os espinhos aquele rosto, sol lindo que desejo para minhas noites.
Fui sentindo as unhas do pé direito, o único que tenho, coçar, foi subindo bolhas de gordura, de repente... Bum!!!! Estava eu jogado na calçada, como Jonas não fui digerido pelo estômago, Jonas rezou a Jeová, eu náusea sem caráter fui expulso das tripas elegantes de uma verdade nunca desejada por minha vida ficção.
Olhei no catálogo, estavam ali mais de dez mil nomes- mundo, escrevi cartas para todo mundo, todos os dias espero o carteiro chegar, a carta resposta nunca vem. Sinto-me um personagem de Gabriel Garcia Marques em “Ninguém Escreve ao Coronel”... Eu no meu porto, sentado, o carteiro sem endereço retorna e a porra da pizza azeda que diz ter se apaixonado por mim e agora vive ao meu lado... Na minha vida  ficção.
Ps- Escrito ao som de Femme Fatale na voz de Carla Bruni












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