Letícia Palmeira: Encruzilhada de emoções

Certa vez minha amiga Renata Luciana, autora do delicado blog de poesias “Estado de Entrega”, indicou para leitura outro blog, “Afeto Literário”, escrito por Letícia Palmeira.  Lá fui eu conhecer as afeições literárias da Letícia, sabedor do requinte literário da Renata não fiquei temeroso de me decepcionar.
Letícia Palmeira é autora de dois livros de crônicas o primeiro “Artesã de Ilusórios” publicado pela Editora Universitária UFBP – 2009 e o segundo “Sinfônica Adulterada” lançado recentemente pela Editora Multifoco.
Infelizmente ainda não li nenhum dos dois livros citados aqui, o que não diminui meu entusiasmo pela leitura dos textos da Letícia que estão no seu blog, leitura densa com raízes em muitas terras, por vezes áridas outras doces e suaves.
A natureza humana é descortinada por um narrador que pode ser qualquer pessoa, homem ou mulher às voltas com um mundo em permanente des+construção. Da aridez das emoções brota também o ser que não se rende e re-afirma suas emoções diante o caos estabelecido em doloridos relacionamentos.
O texto de Letícia em muitos momentos me remete as artes plásticas e quase sempre me vem na memória uma paixão minha, Hieronymus Bosch, pintor holandês nascido em 1450. De traços fortes e marcantes Hieronymus Bosch utilizava sua pintura para expor sem complacência as nebulosas relações entre o poder religioso e político na vida do homem medieval.
Claro que a comparação que faço entre a palavra literária de Letícia Palmeira e a pintura de Hieronymus Bosch se realiza no plano da estética, na capacidade de ambos criarem imagens desconcertantes, o mundo medieval de Hieronymus não se encontra com o mundo de hoje da Letícia, mas se completam na facilidade pictórica- literária de criar e seduzir pelas imagens.
E é justamente a sequência de imagem alinhavada por uma sutil musicalidade que faz da literatura de Letícia Palmeira algo prazeroso e que nos remete a boa tradição literária do nosso país, remete a tradição em criatividade e inventividade no que a soma dessas coisas podem ter de mais significativo.
Lembrando que o caminho literário percorrido por Letícia é a crônica, estilo literário surgido nas redações de jornais, criado para perpetuar o texto jornalístico a crônica se tornou uma das grandes expressões artísticas das nossas letras, hoje se aproxima muito do conto e flerta sem pudores com a poesia, criando outro estilo tipicamente brasileiro: a prosa poética, razão de ser da literatura de Letícia Palmeira.
A dor de sentir, a febre sentida inutilmente por quem nosso corpo e coração insistem em amar, nossas fragilidades diante os absurdos da vida, cores, muitas cores, fome, fome de viver, ser feliz, alegria, sensualidade, esperança, leituras entrecortadas, nomadismos cigano com as palavras, poesia, muita poesia, fragilidades expostas, comoção, beleza e estética própria. Tudo isso tempera a literatura de Letícia Palmeira e aqui fica a sugestão de leitura nesta Sinfônica Adulterada e não menos harmoniosa.













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