“A casa do lago”

Cena do filme A Casa do Lago
Escrevi todas as noites cartas datadas sempre dez anos à frente, assim quando contigo não estiver terás a sensação que nunca te deixei. Hoje estou a escrever em 20 de agosto de 2021. Chove, todos em minha casa estão em crise, é quase setembro, decidi plantar flores no meu pequeno quintal.
Guarda contigo nossas lembranças, nossas cartas, teu livro sempre prometido, o amor sempre promessa velada nas entrelinhas das desconfianças, mas não façamos disso um monumento ao passado, passado algum merece a alegria do presente.
Gostaria de saber dirigir, sair ao anoitecer, ir até a Paraíba encontrar o saudoso poeta, dirigir sobre essa chuva triste, ouvir Carla Bruni, sonhar com teu abraço quente, abraço nunca dado. O idealizado dói pelo limbo das emoções que é erguido. Não é o mal, mas sim o bem que machuca por não ter sido, o bem que não acontece dói mais que o mal.
Às vezes penso que já morri, tudo não existe em cores, há apenas uma única cor dessa ausência das coisas essenciais.
Estou lendo “Razão e Sensibilidade” de Jane Austen e você o que anda a ler? Vivo esses dias distantes do tempo no qual deveria deixar minhas emoções fluírem, meio passado, meio futuro, preciosas inexatidões, só tenho tempo feliz quando sou parte do seu tempo que afinal não existe.
Não quero me perder no seu ontem, nem tão pouco te convido para o meu presente, sou antigo e datado, museu sem visitas, livro sem leitura, imagens repetidas de uma literatura comum, vida rasa. Canções dos anos cinquenta ainda me emocionam.
Ter deixado de beber é um saco, encarar a sangue frio os dias é criar no coração serpentes, todo homem necessita de um vício como tua voz grave cheia de inquietudes. Teu uísque solitário na madrugada fantasia embriagues que já não tenho
Faço poemas comuns, poeta saudoso na prosa desses dias comuns, dane-se a razão e a sensibilidade, cada um é o melhor e o pior de si, não busco excelência em nada, vivo, apenas vivo minha curta vida, desta casa as margens do rio escrevo ao futuro, ao menos alguém saberá qual caminho não deve seguir se quiser ser feliz.









Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys