Coração poeta*

Foto: Ségio Damião
Poetas trazem escorpiões no coração e borboletas na língua, amam o impossível, brincam com o improvável, ter de si dores que talvez nem as sintam de verdade.
Corações poetas trazem o mundo para  seus quartos, acham que suas dores são  maiores que as dores da língua terminal de um compositor de música popular.
A poesia está no cotidiano, na palavra simples do homem sentado a vender cafezinho, na cama imunda de um motel barato, no sexo oral gostoso, na chuva preguiçosa, no vandalismo de um discurso político.
O romantismo ainda versa na maioria dos corações poetas do país, corações ébrios demais, se sentem inclassificáveis, vítimas do sistema, degredados em sua própria língua, foge de definições, mas se prendem a tristes emoções do século retrasado.
Corações poetas são dados a amantes de todas as horas, vadios, inescrupulosos. Nenhuma arte é mais perversa que a poesia, se reconhece um tolo ao primeiro verso escrito entre o grotesco verbo e a palavra poética que se pretendia dizer.
Poetas brasileiros cometem, em geral, o erro da auto- complacência quando não da auto - divinização. Deveriam andar pela sujeira das ruas: respirar a comédia das horas. Poetas brasileiros são fodas, batalham publicam seus livros,fazem sarau, se perdem em corações amantes e voltam para casa ainda sedentos de suas esposas e maridos.
Muitos poetas foram mortos durante a ditadura militar, mas ficaram celebres apenas os compositores de música popular, poesias ao túmulo da história, flores inanimadas dos dias em que a brutalidade era uma única e estúpida voz.
País tacanho que chama letrista de música de poetas e poetas de loucos, sonhadores, desocupados,vadios ou pior de poetinhas.
Sobre corações poetas nascem flores e amoras, lixo e amores em decomposição, orgulho, nascem gritos e silêncio. A palavra e é ela que tem sobre tudo a sedução maior. Palavra.
Escrever o mundo possível, criar o que poderia ser mais nunca é, revelar-se por dentro mundo escorregadio, planta carnívora, balé de madeira, ritual de medo, êxtase e introspecção.
Poetas e seus corações são das liberdades, da fumaça nuvem, arco-íris em utada cores nos olhos da profunda liberdade, corações poetas são seres das emoções, da vida por vezes celebrante morte.
Nossas vidas ficariam insuportáveis sem a poesia cotidiana, essa poesia da fumaça dos automóveis, das carroças puxadas por burrinhos entre carros, a poesia da vida e da morte, das ambulâncias em alta velocidade, das mãos nos parques.
Corações poetas são ótimos leitores, não há poetas sem leituras, livros como pão... Há poetas das multidões, ensimesmados, políticos, alienados no vazio de suas dores de corno, líricos da vaidade, sujos de realidade, sabedores e ignorantes do tempo e todos são tratados na indigestão social da prosa de cada dia.
Poetas brasileiros versam muito sobre si mesmos, sentem dificuldades de ir além de suas rotinas e geralmente quando o fazem perdem a poesia e mergulham em filosofias de botecos.
Corações poetas têm em si toda maldade dos anjos e a tirania das vaginas que a tudo come, tudo devora, tudo parem.
O encanto é verso livre, sonetos da ordem terceira da putaria, igreja de toda cristandade, a palavra tudo pode naquilo que fortalece, poetas tolos, ébrios, vagos, maravilhosos e insensatos, palavra como altar, seios da linda morena na minha boca, língua como prisão voluntária, pernas que se abrem, prazer destilado e carne e suor.
Corações poetas são mais palavras que ação, sentido , rua direita torta, labirinto, seduzir e não trepar, ajoelhar e nunca rezar,todos os dias às seis horas da tarde todo o tempo para quem sabe da palavra, terços e versos a nos crer livres.
* Na foto, da esquerda para direita: Dum, Jorge Boris, Herculano Neto e Eu.












Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys