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Fica comigo...

Se os relacionamentos fossem sexo bom, companheirismo, solidariedade e vivências individuais, mas não intolerantes com o parceiro, muitos amores teriam tempo para namorar a eternidade.
Porém, no nosso mundo prático, prático também é a falta de paciência para maturação, tudo é prá já. Tempo de viver novas experiências pode ser o tempo de não viver nada, corações protocolados em operações sentimentais S/A. Sociedade do medo com capital aberto a intolerância.
A pele, o toque... Tudo se confunde com a roupa da moda que antes do verão chegar será esquecida em um canto qualquer de um velho baú sem emoções. Quem vai parar um instante para ouvir do outro uma tristeza, inquietações, aflitas buscas por atenção, um pedido de colo em plena segunda-feira?
É mais fácil embalar tudo e despachar de férias para a China, trocar o afeto por um casaco de lã curtido do couro de uma pobre foca. O material substitui o espiritual. Circo armado: a grande festa da farsa colorida vai começar, sim podemos ser tristes, frios e coloridos como palhaços esquimós.
A cama se transforma no fronte e a batalha é desigual de quem mendiga por atenção, e o medo desse desconhecido deitado ao nosso lado nunca vai nos deixar portas abertas para um encontro com nós mesmo e com um amor que seja antes de tudo parceiro nesta vida.
Ninguém é vida de ninguém, mas enquanto juntos todo mundo pode ser antes de amantes, amigos, companheiros.
Nada mais fim de caso que depois do sexo virar o rosto e dormir como um porco saciado pela ração costumeira, gente não nasceu para isso, gente nasceu para depois do sexo ter a calma e certeza que ali naquela cama há energias e histórias para mais mil e uma noites maravilhosas de doação mutua.
Temperar o relacionamento sempre, ter agrião, molho de tomate, livros de Jorge Amado, pitadas de inesperadas sacanagens, carinhos escondidos por debaixo da mesa do restaurante e coragem para dizer não se o outro insistir em por na mesa seu coração Groelândia, ou seja, bonito, mas frio.
Ter vida em comum é o mistério de não ter mistério, é revelar-se sem perder a individualidade, é caminhar junto, mas nunca carregar um nas costas do outro, é ter a elegância de retardar o gozo e esperar pelo outro, descobri que na velhice também há beleza, que o tempo não tem o poder de esfriar nada, mas a rotina servida sempre na mesma hora tem.
A emoção de se permitir a paixão, ver na alegria de outro alguém a própria alegria refletida, saber que se cairmos alguém ao nosso lado nos dará sua mão solidária, amor incondicional, mas nunca desprovido de razão.
Enquanto isso: casamentos navios negreiros, maridos que estão mais para capitães do mato ou sócios de loja de departamento, no lugar do afeto e carinho levam para casa mil bugigangas, dão um beijo na testa e dizem: durma bem querida e sonha alegremente com a amante que acabara de deixar em casa, namorados tarados por carrões e futebol tratam as meninas como sorveis de suas machezas mórbidas.
Escrevo cartas e as lanço ao mar, em alguma ilha meu grande amor a esperar por mim, farei sinais de fogo, decifrarei mapas nas nuvens, deixarei minhas mãos na sorte de ciganas. Quando abrir a porta pela manhã meus olhos estarão nos olhos que serão sempre meus se sempre formos da emoção, amor como companheirismo e solidariedade.




































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