Pular para o conteúdo principal

O beijo

Gosto de beijar, mais que isso, gosto de beijos que nos remetem a sono bom, aquele estar na boca de alguém como se tateássemos nuvens. O beijar é por si só algo que nos traz o conforto de um canibalismo civilizado.
Roçar de línguas nas múltiplas variações possíveis das nossas taras. O dizer tudo, em silêncio escrever imprevisíveis histórias de afetos, sugar energia e na carência absorver incertezas matinais de uma língua estranha a acordar na boca posta em desejo.
Gosto de adormecer em línguas vadias encontradas pelas esquinas em sábados bêbados e decadentes. Sinto falta de bocas solidárias quando acordo na ressacar de ser quem sou, bocas e dentes postiços juram eternas mentiras de amor.
Beijo falso como dias de carnaval na Bahia, sexo sem beijo, melhor masturbação. Beijo que começa e que nos alerta do fim, gosto de ser beijado por quem me faz sorvete de baunilha e chupa-me na leveza de um tiro a queimar roupa.
Beijar é abrir as portas, mas não necessariamente o coração, coração é boca que quase ninguém beija. Beijo gentil e tímido de noiva em altar sem santidades, beijos das meninas da Praça da Sé, corpos cansados, lágrimas roubadas de alguma emoção vadia.
Gosto de beijar inocentes bocas, dessas incivilizadas e por isso mesmo ainda guardam a paixão na ponta da língua, beijos nas horas vagas de poesia, pão e poesia no escuro da boca, boca boceta que também adoro beijar.
Não há imagem mais lindo: primeiro beijo, beijo tarado na boca que se faz boceta, do amor a se materializar no toque, do ter que vai além da quarta-feira de cinzas, beijar é ter de si o mundo do outro: boca, alma a escorrer pela saliva.
Beijar morangos, serpenteia águas telúricas na língua a valsar balé carne e trincar de dentes, beijo convite ao corpo explicitamente gostoso. Língua é palavra úmida, ternura sincronizada com o desassossego do coração.
Gosto do beijo com a emoção do sal e o mistério do mar. Beijo silenciosamente comovente, sem dizer estar em tudo, beijo sangue e espírito, espuma de sabão, hortelã e menta. Beijo a roubar pela língua algum coração desavisado, beijo assim minha saliva na tua, meu calor na tua boca na qual minha nudez começa.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@bol.com.br



















Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro Ney, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profund…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…