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Ouvir e escutar*

As vozes da comodidade são suaves e sempre dizem o que desejamos escutar, quando apenas deveríamos ouvi-las.
É tão cômodo quanto perigoso pautarmos nossas vidas sobre as mesmas e velhas emoções, é mais seguro a não convivência com o senso comum.
Estar ao abrigo seguro de emoções conhecidas é bom, mas é necessário estar preparado para o inesperado, pois é ele o maestro das ações cotidianas as quais não temos o menor controle, não sejamos criaturas lógicas em demasia, somos movidos por paixões.
Adjetivos são maravilhosos e sempre bem aceitos pelos ouvidos, mas há os imperativos que mesmo nunca ditos se impões, “verdades” emocionais podem nos deixar nus, “mentiras” emocionais nos fazem crer o quanto somos maiores ou menores do que realmente somos.
Por vezes é mais que acertado nos olharmos sem complacência, sem o escândalo emocional de nos sabermos mais importantes que o simples fato de existir. Não sei qual é a medida certa para existirmos na paz das nossas emoções, mas sei a medida erra disso: nos olharmos como espécie rara a qual o mundo faz parte e não nós do mundo.
A vida é a falta de lógica, é emoção, tesão. Racionalidade em demasia nos leva ao pânico do tempo que estamos.
Quem não deseja um amor? Um carinho? Saúde? Tudo isso é possível e se notarmos bem tudo isso são coisas espirituais que não podemos comprar na loja de conveniência.
Certa vez fui levado a um bordel por alguns colegas, me encantei com a beleza triste de uma prostituta chamada “Açucena”, fomos para o quarto, lá descobri que sexo sem afeição não funcionava, paguei pelo tempo dela comigo e fui embora sem tocar em parte alguma do seu corpo, não queria sexo, a tristeza dela me cativou, busquei coisas espirituais em que estava acostumada a viver na sangria de todas suas emoções.
Vender o corpo por alguns minutos, nunca esperar afeição alguma de pessoa alguma, mergulhar no invisível mundo dos vícios espirituais e se perceber de joelhos diante o altar do mundo no qual o deus tem menos complacência que o deus cristão idealizado em nossa fé romântica é a soma adjetivada das nossas emoções frustradas.
Meu amigo, poeta Jorge Boris, sempre me diz que não posso julgar a ética dos outros pela minha, isso é certe e verdadeiro, quando nos chocamos com as falhas éticas de pessoas é porque projetamos nestas pessoas nossas próprias virtudes e esperávamos delas alguma tomada de posição próxima as nossas. Nada mais tolo, nada mais sem sentido, nada mais egocentricamente romântico.
O mundo não está doente, o mundo é doente, o mundo eu e você, não o mundo enquanto produto da natureza.
O meio ambiente criado artificialmente por nós são símbolos semióticos de graves patologias: ilusão de poder, poder, egocentrismo político, sede interminável por dinheiro, divisão da sociedade em cidadãos de vários níveis, desrespeitos sistêmicos as individualidades.
Neste vácuo todo não penso que terminaremos nossos dias em caos absoluto, penso que uma nova sociedade já surgiu, estamos vivenciando o fim de muitas eras tristes e predadoras de vidas, escutar a voz sincera que nos chama a razão de não termos paixões vãs. Tudo isso consigo enxergar em meio ao lixo emocional o fortalecimento da certeza de que podemos todos construir um lugar no qual somos a fonte harmonia com nossas próprias emoções.
A estrutura de felicidade que aí está não nos serve, modelo de justiça e de amor gestado para nos ilharmos no mais distante das nossas emoções. Escutar a voz do desconforto é e sempre será um poderoso aliado contra a voz surda do comodismo, das migalhas de felicidade e da sugestão de que somos importantes quando não passamos de cristais de gelo em sol de verão.
* Na foto eu e meu compadre e poeta Jorge Boris.







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