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Sotaque

Encontro-me nesse seu sotaque, esse Brasil não televisionado, não vendido como um país tropical abençoado por Deus em que crianças são cardápio do turismo  sexual.
Encontro-me nesse teu sotaque que é a parte real e linda de um país que são vários, um país diversidade que insistem em singularizá-lo.
Recuso-me a ser brasileiro pátria futebol que só de quatro em quatro anos lembra que todos fazemos parte de um só país, esporte não é patriotismo, seleção de futebol não representa meu país pés no chão, sabor de mar, ar das matas ainda intocáveis, frio e neve, calor das caatingas onde nasci.
Teu sotaque gosto de gás carbônico, envenenado pelo medo das grandes metrópoles, teu sotaque caipira e lento como o sono da Iara nas águas de um ribeirão, teu sotaque beira mar nordestino como o meu, teu sotaque frio gostoso como o do Humberto Gessinger, flor do centro oeste e o quase nunca lembrado do norte verde de solidão.
Nossos falares dizem de um só povo e muitas paixões, falares do mundo todo, português herança de uma nau envergonhada pela nudez Tupi- Guarani. Não queiram vestir minha língua com tuas roupas, deixa-a ao sol, na preguiça que não é vadiagem da minha Bahia sol e cor como as telas de Caribé.
Meu falar é português nu como os índios do meu sangue, não façam novelinhas nas quais o sotaque nosso de cada dia é ridicularizado, o Brasil não é carioca- fluminense, o Brasil é simplesmente o Brasil algo como dois e dois igual a seis, uma conta que nunca fecha e, no entanto nunca está errada.
Brasil do mundo todo uni-vos em torno da tua salada de sons e cores, olha-te nos olhos sem medo do que pode enxergar, você sou eu, meu negro com teu branco, minha falta de dentes com tua falta de esperança, meu amor mórbido por dias em profundo silêncio com tua Avenida Paulista tão viva e tão morta. Nossa alegria católica e profana.
Somos a mais bela contradição da antropologia, a negação do nazismo e desdém do darwinismo, coração serenado, a flor do dia, a beleza das madrugadas intermináveis. Deus é o sol no nosso corpo, no balançar bunda das meninas do recôncavo, na força quem vem das águas, do meu canto em profunda sensualidade com tua virgindade nortista.
Na música de Raul Seixas nossa mais acertada beleza: cantamos juntos, mas cada um com a sua voz. Sim cada um com sua voz, somando-se para o Brasil ser mais Brasil e não o Brasil eternamente paulista, carioca ou baiano, o país de todos os cantos e povos que ao final é unicamente BRASILEIRO.
http://edineysantana.zip.net/
ediney-santana@hotmail.com

















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