*Tatuagens

Dois cântaros em vinho saliva que é tudo da tua alegria, matar a sede no teu corpo, teu corpo que guarda o meu. Havia ursos e dois pequeninos senhores sem libido a nos olhar corpos e sexo ali na praça.
Teu corpo minha tatuagem, roçar de suores, entre espaços me deixe vagamente no esperanto da tua poesia.
Com canivetes roubados das serpentes do inferno cortei você da minha pele, fiquei só em ossos, nu, mas feliz como quem rouba corações no recreio.
Não há solidão, só carência e gengibre no bar da esquina, algo dentro de mim cresce e me devora pouco a pouco, a luz me dá medo, na escuridão encontro paz.
Olho no espelho, teu rosto ainda está lá, teu gostoso rosto, sorriso que faz de mim coração sem paz, alma em controle remoto.
Sem controle escalo estrelas, dessas que só aparecem noite de canibalismo, devorar, comer, sou esse não ser, filho dos vulcões, seresteiros da noite tocam ao nosso fúnebre amor, amo como se estivesse doente.
O que de mim há de ficar? Vida em dissonância, três notas e uma sinfonia escrita por um poeta amado, poeta bom é poeta vivo e tarado.
Minhas taras vão nas águas desse rio, rio da minha cidade, ele sempre esteve aqui, lavou minha roupa, meu corpo, enquanto lambia teu corpo feito um cachorro do mato você cravou em mim o punhal do desassossego.
Entrei em uma bolhinha de sabão, era tudo leve como OMO nas mãos de minha mãe, subir até ser acertado por uma agulha disparada pela tua infelicidade, incapacidade para o bem, incapacidade para amar e vinte mil cerejas enferrujadas na alegria da vitima.
Ergo as mãos, vou a Minas, encontro Aleijadinho, me esculpe a marteladas meu novo coração, monge franciscano, me sinto livre das tuas safadezas.
Não há mais Bahia, Bahia em que todos os cruzamentos se ferem como mulheres a venderem prazer e gozarem tristeza, todo gozo é triste quando em sal e solidão, gozo bom e gozo amigo, como duas crianças na chuva em casamentos imaginários.
Sim, há vida além da devoção cega a esse teu coração velório de sete dias, sim, deus renasce em meu espírito carbono e éter, no divino que é tua língua gostosa. Quero entrar no teu corpo, fazer ninho como serpentes no alto da montanha, como casais de velinhos asilados em paixões antigas.
Sou minha cruz, madeira em cupim barroco, cheiro do tempo, cheiro sujo por históricas cadavéricas, pombo de igreja, padre embalsamado pela fé e pela tolerância a nossa santificada ignorância.
Sou o teu manto de carne, esqueço minha porção homem e me fervo na porção bicho, para além da selva grilos e arlequins dourados, nas mãos cogumelos de todas as cores, cores do teu olhar genocida, se me olha me deixo de ser.
Sou tua não benção, o erro mais perfeito que há, padre filho e o diabo nos braços do espírito santo, ser selvagem, mas ter no coração a bíblia de certas doses de amor.
Escrevo poemas, tenho dores, tenho alegria, tenho tesão, hoje não há noite escura, só eu você e poetas de todas as línguas no roçar do nosso corpo romance, prosa e poesia.
ediney-santana@hotmail.com
*A imagem que ilustra essa crônica é de uma escultura de Aleijadinho





























































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