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Non, jê ne regrette rien

Não me arrependo das flores plantadas em corações áridos, da embriaguez sem sentido. Não me arrependo do mal que fiz tão pouco do bem cultivado, das cicatrizes na alma, da solidão ideológica.
Não me arrependo de não ter ido embora quanto tudo foi expulsão e medo, das alegrias fúteis, do bem feito e do mal recebido, das traições e do convite a festa alguma. Não me arrependo da hora nunca marcada, das horas perdidas, do silêncio na hora errada.
Não, não me arrependo dos corações perdidos, da gilete nos punhos, dos passos a esmo, dos dias nos quais fui bandido e herói, das canções em línguas mortas, da poesia gasta e do suor derramado sobre corpos irreais ou fúteis.
Não me arrependo dos santos ou dos demônios, de ter sido anjo e demônio, de abrir minha casa a monstros e anjos, do vazio programável ou da dor constante.
Espero morrer em um dia de chuva fina, ser enterrado em um dia de chuva fina, quero um dia de primavera ser enterrado ao escurecer, não me arrependo das noites longas para alegria alguma.
Dos caminhos nunca construídos, da paz trágica, das nuvens sobre meus pés, não me arrependo das minhas caretices, dos meus crimes, das verdades inventadas para me livrar de gente chata, não me arrependo da fé negada, da morte de deus, de não ter fé em deus algum, excetuado-se, o tempo.
Não me arrependo pelo entusiasmo em demasia, pela fragilidade das emoções, pela boa fé e paz constante, não me arrependo de andar em ruas sujas, das noites insones, das bandeiras equivocadas.
Quero ouvir Maysa e amar ao som de Adriana Calcanhotto, nada me traz arrependimento porque aceito todas penas e absolvições.
Abro a porta e deixo a noite entrar, está tão frio, vejo orquídeas e todas as flores marginais do meu abrigo lúdico.
Alguém canta ao longe, tudo no mundo é pré-noite, não me arrependo do convite feito ao desejo que se revelou assassino.
Começo, recomeço sempre de novo, do chão, do pó, silêncio, não agradeço, sigo em frente, há uma dama cantando só para mim, ela vem de longe, muito longe e canta em uma língua linda e doce, esta noite, ao menos só para mim.



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