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O diabo veste vermelho

Tenho medo da morte emocional, de pouco a pouco me auto-vampirizar, negar todas possibilidades de afeição e inspiração. Creio que a única morte real seja essa: vivermos sem propósito, perdermos a capacidade da emoção, morrer de tédio diante nós mesmos, não ter na vida a parceria necessária para que antes de tudo nunca deixemos esquecidos em um canto qualquer do coração nossa alegria e solicitude para com outros tantos corações.
Quase tudo neste mundo pós- qualquer coisa nos sugere intolerância emotiva. Sou um homem sensível e sinto doer no estômago às indelicadezas emocionais, talvez por isso tenha feito a opção de viver mais comigo que me aventurar por aí e voltar para casa carregado de desencanto.
Os navios negreiros do desencanto nos favelam os risos, nos traz nus nestes descampados os quais amor tem no coração apenas negativas ou imperativos que nos gritam as delinquentes razões do conviver doente, das verdades cativeiro e da dor como sobremesa.
O Livro das Virtudes, escrito por William Bennet, nos canta a história de um menino que achou uma cordinha mágica e todas as vezes que se sentia frustrado ou queria fugir de algo ele dava um puxão na cordinha e ia direto para o futuro, ao final ele se encontra envelhecido e só, tudo passara tão rápido, sua vida toda vivida em uns poucos dias, se arrependera e uma fada lhe devolveu o tempo não vivido. O pobre garoto sofria de uma doença chamada ansiedade, dor e objeto emocional farto nesta vida ilha que vivemos.
O menino da história de William Bennet vivia perdido no tédio dos seus dias, por isso sempre desejava o amanhã, mas o amanhã sem tédio não existe e o que ele encontrou foi uma insuportável solidão.
Quantas vezes não estamos assim negando compulsivamente o presente e buscando abrigo na esperança de que “amanhã será outro dia”. Quando isso acontece é porque a inspiração perdeu para o desencanto, e sem inspiração pouco somos diferentes das coisas, ser coisa é viver e não existir.
Se tivesse a cordinha do livro do William Bennet, honestamente mesmo com todos os riscos, daria um puxão de leve, não sei como um puxão pode ser leve, mas daria. Desejaria cair em outra cidade em que fosse mais honesta e justa a vida, em que para trabalhar ninguém precise dizer que o diabo é belo e que morrer por falta de uma vacina é só questão de estatística.
Há muitos furúnculos sobre o riso que vejo pela fresta da minha janela, vejo um cardápio de insanidades, o mal sendo festejado, o crime ganhando prêmio Nobel da impunidade, mais uma noite de domingo, nunca pensei que gostaria tanto das noites de domingo, tem algo de canções da década de 1930, volto para meu quarto, ascendo à luz, leio Graciliano Ramos e dou boa noite à vida.







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