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Setembro de mim

Nunca mais fui ao sertão, estou com uma saudade retada daquelas paisagens cristalizadas em minhas lembranças. Da poesia de rua, dos poetas na feira, da feira como acontecimento cultural e não só um lugar para comprar coisas.
Quando adolescentes ir ao sertão era alegria na certa, namoradinhas que enchiam meu peito adolescente de paixões agudas e doloridas, ir ao rio, entrar nas matas, passar os dias correndo pelas ruas de chão batido, olhar minha vó Erundina que parecia ter todo amor do mundo nos olhos tristes e calmos.
Tudo foi tão rápido, tudo tão breve. O sertão tem algo de irrealidade, o sertão nordestino dos poetas cordelistas é ficção pura, reis e rainhas em suas cortes vazias, santos e deuses que vivem sobre lombo de jumentos, amor que se eterniza na simbiose de sermos sem nos perdermos no bem querer do outro.
É bucólica e telúrica a relação dos povos sertanejos com a natureza, a crença na terra, o respeito às águas e o silêncio diante a grandeza vazia das caatingas.
Deitado aqui em minha cama, na costumeira solidão, me deixo pleno de saudade, sentir saudade é também uma fuga do momento opressor que vivemos. Quantas horas são necessárias para do fim renascermos? Horas periféricas são estas em que tudo tem certo sabor de despedidas, nestes momentos volto para minha aldeia.
Hoje andei pelo jardim da Purificação, estava tudo calmo, há anos dou volta em torno do chafariz e sempre me alegro com os traços de bronze que me lembram corpos desejados e tarados por mim.
Meu coração feminino caiu do vigésimo andar, ao chegar ao chão vi todos os rostos que já amei, senti o perfume doce de Gabriely Del Fabria, amor síntese de minha vida. Seu corpo moreno, seios meigos e sorriso de menina cheio de esperança.
Gabriely Del Fabria: sexo bom, cheiro bom, alegria saudável, tristeza necessária, língua doce de leite e caramelo Nestlé, coração lúdico e amoras nos olhos.
Há dias que sinto o cheiro de gente aqui no meu quarto, não um cheiro qualquer, é um cheiro sem propósito, mas que provoca suores e desejos, sentir gente em mim, sem propósito, mas com tesão.
Deixe o palhaço aqui na frente do meu espelho, ele traz flores e é sempre amigo. Não precisa vir, estou bem com meu espelho, gosto do palhaço que vejo, desse riso meio termo, não digo palavra alguma, apenas namoro o palhaço na frente do meu espelho.
Sim, tudo está no espelho delirante a nossa frente, caminhos inseguros são também excitantes, o perigo aguça alguns instintos.
Deixo tudo como sempre esteve, olho para o longe, estou novamente no sertão da minha essência, escrevo poemas, faço tempestades em copo de água e abraço meu passado neste presente que ainda construo.

 




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