Talvez Poesia

 Há uma nuvem cinza no ar, algo de seco e dramático, alguns diriam que é poético, eu digo que é cansaço. Triste país divido em castas, elegantes castas tristes. O estômago tritura antigas ruínas, um dor constante que também é sal e arco-íris.
O sentimento de impotência dói mais que a depressão, mas há as cantoras da década de trinta, sempre estão aqui com suas cantigas anêmicas, seus hálitos de cigarro e bebida vulgar.
Vou vivendo os dias como crianças em ruas que é lar, pão e ciranda de medo. Canto em silêncio o que meus olhos não conseguem ver, vem o vento frio e me abraça, desejo pular em uma banheira cheia de pedras de gelo, quero o tempo frio para meu corpo adormecer.
Se soubesse pinta pintaria minha casinha na qual me deixo feliz sem medo, uma casa que difere das outras pelo silêncio profundo.
Pouco sair da minha rua, da minha cidade, mas sinto em mim tantos corredores e lugares, tantos olhares, sou um homem micro organismo, me sinto transfigurar na minha imaginação solidaria.
Adoro a canção “Flying” do Chris de Burgh, às vezes escuto essa canção cinco vezes seguidas e mesmo sendo analfabeto em inglês entendo tudo que o Chris canta. Meus amigos dizem que tenho gosto duvidoso para música.
Meu gosto é o da emoção o que me toca ouço, não vou ouvir som “cabeça” só porque é “cabeça”, mais de que agradar os iluminates da cultura, meu gosto, deve agradar ao meu espírito.
Espírito fracionado, estático em tantas decaídas certezas. Há sempre a velha estrada empoeirada a nos levar para qualquer canto e cantando a minha aldeia chego ao mundo nestes fragmentos de amor.
Está acordado e desejar sempre o sonho, um dormir que nunca finda, morrer sem deixar de estar vivo, viva agora, para além da vida não há movimento, tudo é profundo silêncio como os dias em minha casa.
Abraço bom o dia que amanhece me deu, tem algo de sincero e calmo. Amar o dia, ser do dia o parceiro perfeito, dia de domingo sem os demônios do sábado e suas ilusões em sexo, risos e alguns beijos com sabor de plástico queimado.
Estou indo lentamente, é uma cor laranja montanha russa, há algumas flores, lá do alto o ar é tão bom, sinto-me mais leve e puro. Escrevo cartas para meus antigos amores não nascidos, em 2045 talvez não esteja mais aqui então resolvi amar, mesmo que seja um amor de mim para coração algum.
Toda causa é a não causa, toda verdade tem em si o amor da mais infeliz mentira e a natureza nos espera com seu riso a transformar tudo em pó. Deita a causa, a mentira e a verdade na mesma vala comum das ilusões.
Deito entre as areias de Itapema, o sol é delicado, o mar lambe minhas pernas, estou entregue ao tempo algum, nestes dias seremos sempre sereno e orvalho. Crio nas entranhas dois mil escaravelhos cada um de cor diferente, cada um sendo deus me faz santo nestes abismos amigos.
“Corre os meus dedos longos em versos/ tristes que invento” e lendo Cecília Meireles vou aprendendo alguma coisa sobre luz, alguma coisa a cantar paz. Às vezes tenho a sensação que passo por uma rua daqui a cinquenta anos e encontro com o Ediney de agora, que lá neste tempo inexistente tudo se faz para o bem e para a felicidade.
Estou terminando as coisas, escrever para as gravuras dessas horas, corda a enforcar na grafite descompassada esse monte de palavras que chamamos texto.
Vivo na periferia dos sentimentos, anônimo entre o romance que escrevo e o perfume inodoro tateado em plena escuridão do corpo amado, nunca tocado e brevemente desejado.
Não sou áspero, sou doce, homem em rosa coração e chá de alecrim, ser desta maneira e ter na solidão a cama mais amiga para dias de noite e noites sem sono.












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