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Endoscopia da melancia

Hoje fui ao hospital fazer uma endoscopia, aquele exame que introduzem uma mangueirinha goela a baixo até chegar ao nosso estômago. O negócio só não é pior porque antes da tal mangueirinha sair deslizando pelo nosso esôfago somos sedados.
Confesso que gostei do sedativo, agora sei porque há tantas pessoas viciadas nessas coisas, nos levam as nuvens, cortam a ansiedade e o melhor: eliminam a dor. É o paraíso oferecido pelo diabo.
Durante a longa espera para fazer o exame, algo foi difícil fugir, são aquelas mulheres loucas com mania de contar suas desgraças pessoais como se fossem troféus. Há as que já operaram duzentos miomas, já fizeram três mil endoscopias, sofrem até hoje por mil abortos involuntários, as que falam horrores de médicos e as piores são as consoladoras de plantão que dizem: meu pai teve diarréia dentária, mas ficou bem, tenha fé em deus.
Uma mulher chegou quase no fim dos atendimentos, o melhor estava ainda por vir, e disparou: depois que fiz a primeira endoscopia fiquei viciada em melancia. Como é o negócio? Sim a infame ficou viciada em melancia e na falta da fruta preferida da Magali satisfaz sua dependência com mamão. Mamão e melancia dão barato.
Conheço pessoas hipocondríacas, mas essas criaturas que se aglomeram em porta de consultório médico é uma espécie hibrida entre os hipocondríacos e a falta de educação em gritar nos ouvidos dos outros suas doenças ou misérias pessoais.
Uma espécie de terapia em grupo forçada se realiza em cada encontro desses, não deixa de ser constrangedor para quem só busca atendimento médico ser obrigado a ouvi o surto patológico de pessoas estranhas, de quem não percebem que o melhor a se fazer em um hospital é fica em silêncio.
Enquanto era torturado com aquelas baboseiras todas, olhei para o lado e vi uma senhora bastante idosa, branquinha, cabelos lisinhos, frágil e com ar de cansada, me lembrou minha bisa Maria. Perguntei sua idade, 80 anos, me disse morar na Cachoeira, cidade há 48 km de Santo Amaro.
Pacientemente D. Maria estava ali, desde ontem em jejum, esperava pacientemente sua hora de ser atendida. Ao menos conheci alguém agradável enquanto esperava também minha hora. O olhar de D. Maria de São Pedro era melancólico, mas profundamente amigo, pelo seu olhar dizia: calma menino, já ouvi muita loucura em porta de consultório médico, você só está começando.







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