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Um filme para Mary End

Às vezes vem o frio, em nada o sol pode ajudar. Teu abraço tão distante e minha língua tão adormecida na não mais busca por ternura. Sou envelhecido poeta barroco na decadência de um renascimento que nunca vai acontecer em mim.
Hoje é noite de sempre, não vem o dia. Há rosas da despedida na cama, não busco o verbo improvável, a metáfora exata, quero do Tempo ser amigo quando meus dedos não escreverem mais minha sonata de poucos acordes.
Escrevo poesias em cartas que nunca vão sair do meu quarto, há morcegos do lado de fora, na lagoa os sapos cantam, a lua traça o caminho luz para quem da noite se faz.
Há sempre o apego desnecessário a coisas que embora doces não passem de veneno e sugadores das nossas já desumanizadas energias, nega-se o que de melhor temos para pior servirmos, o pior servir é o que nos nega em essência, nos reduz a pó, escandaliza nossas emoções.
Não tenho medo, sou todo corpo, meu espírito vaga na delicada razão que nunca pousa, é sempre nuvem e raios de Iansã meu tesão pela vida, mas me permito beber algumas doses secas dessas angustias matutinas.
É impossível um espírito criativo não ter algum vício, o problema é que há o beijo amargo das hóstias na porta desse céu-inferno.
Fico pensando se todo mundo que diz ler Kafka, Fernando Pessoa, a Bíblia e tantos outros livros e autores decadentistas lêem mesmo, acho que não. Há tanta revisão de valores nesses autores que a leitura profunda de suas obras levaria a sociedade a uma revolução íntima sem precedentes, na hora do vamos ler o contentamento é mais simplório, algo como mascar chiclete e comer amendoim no parque.
Mergulhos profundos nos leva a ler imagens nem sempre inspiradores, nos revela a nós mesmos nossas faces menos idealizadas ou romanceadas. Tenho dois pavores ligados a morte: primeiro é a ideia de um corpo no caixão, o segundo é o vexame de ter desafetos meus na excitação da vida a velar meu corpo, isso é bíblico “não deixa-ai senhor que triunfe sobre mim”. Isso é angustiante e tolo.
Qualquer dia desses vou escrever algo entre Martha Medeiros e Padre Fabio de Melo, também sou filho do capitalismo e mereço entrar pela porta da frente nos reinos da terra. O mesmo público que diz odiar autores como esses de vulgar talento são os mesmo que só consomem aquilo que vem com a marca da besta na testa: mais vendidos, ganhador de prêmios, apareceu no programa X apresentado pelo imbecil B. A arte em si é só a mais valia da urgência de muitos estarem ao lado dos abençoados por essa besta quadrada que é a fama. Mas há o sucesso, anda meio esquecido, mas ele existe.
Quase sempre escrevo misturando ironias, humor, acidez, mas é interessante sempre dizem que sou formal, e que falo sério. Como o diabo foge da cruz eu fujo de mim, quando mais do mundo sério, a seriedade do mundo enchem os consultórios dos psicólogos e seus eternos pacientes.
Aos trinta e sete anos de idade ainda me masturbo pelo corpo que desejo e não posso ter ou pelo que tive e sinto saudades, gosto de corpos frágeis, que pedem proteção, sentem vergonha de gozar ou dizer um palavrão sacana a meia luz de um quarto abandonado de razão.Me permito viver profundamente minha condição de pessoa, de animal feito para sexo e reprodução, claro há a humanidade e seu requinte em seu mau-caráter.
Ando meio tudo, meio sabor de plástico na língua, meio sombra, meio delicado, sobretudo inteiro na disposição de sempre aprender coisas novas como andar na chuva abraçado com quem amo sem medo de parecer ridículo. Às vezes vem a primavera.

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