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Ao som da chuva

Viver em uma pequena cidade requer certa imaginação para não ficarmos a rodar rodar no circuito fechado do tédio sempre presente. Todos os dias é preciso certo esforço para não devorar a si mesmo em um ir r vir sem fim do que se é. Todos os dias as mesmas pessoas, as mesmas saudações e a novidade é não ter novidades, a alegria tem hora marcada para chegar bater o cartão de ponto e ir embora.
Sem livrarias, cinema, outra diversão que não seja futebol, bar e vez por outra alguma peça no teatro não é muito difícil sentir-se ilhado na embriagues do tédio. A rotina é tão seca que chega um momento no qual ficar em casa é a melhor diversão, deitar, dormir, dormir e esquecer o tempo repetitivo la fora.
Mil planos, idéias sobre tantas coisas, uma gravidez que parece feita sobre medida para o aborto, é assim que me sinto, grávido e eternamente abortando, engravido pela manhã e a tarde sangro. Cidades pequenas, sem grana, pouco vale uma gravidez por mais bem intencionada que ela seja.
A gravidez além do parto sugere coisas novas, e o novo ameaça a rotina, alguns se sentem seguros com a rotina, outros lucram com ela e alguns poucos como eu reclamam dela e sem ter muito que fazer dormem ao relento do sempre amanhã como exato ontem.
Há um poema de Carlos Drummond de Andrade chamado “Cidadezinha qualquer” que diz: “Casas entre bananeiras/ mulheres entre laranjeiras/ pomar amor cantar/Um homem vai devagar/Um cachorro vai devagar/Um burro vai devagar/ Devagar... As janelas olham/Eta vida besta, meu Deus”.
Santo Amaro não tem esse bucolismo, segundo Drummond, besta. Por ficar entre as duas maiorias cidades da Bahia, Feira de Santana e Salvador, Santo Amaro é um híbrido entre o atraso e o avanço, não é rural, mas também não é urbana, não é parada, mas também não vive a velocidade de uma grande cidade, embora sua população sinta a influência e muito da capital Salvador, mas não se engane o tédio anda por essas ruas.
O pior é ir envelhecendo e ver seus amigos indo embora, começando outras rotinas, outras amizades. Sentado no banco da praça olho novos poetas, roqueiros, políticos e há uma ponte invisível a nos separar, algo meio Castro Alves – Vinicius de Morais, ou seja, o que tinha uma causa e o que era a causa.
O melhor caminho para enfrentar a rotina e o tédio é a criatividade, faz de barquinhos de papel grandes canoas perdidas em um oceano inóspito e você é o capitão para navegar águas tranquilas, não potencializar o azedo disso tudo, não afogar-se na complacência das coisas.
Neste momento tudo é cansaço em Santo Amaro, há algo de sujo no ar, algo de ruim. Parece que o mal também se reproduz por osmose, vejo pequenos brotos transformados em horrendos cactos feitos para o mal dos espinhos. Pergunto ao meu Deus Tempo: quanto ainda o ar vai ficar assim seco? Ele responde: “Quando chegar o fim das eras de tanto se subir os monturos se rebaixará os muros”. Confesso minha alegria dessa universalização da dor como catarse para o bem.
Certo, mas há as novas paixões e o canto mudo dos pardais em meu quintal, a beleza das lagartas devorando a bananeira, disso tudo nascerão borboletas, a vida sempre da um jeito de acontecer, eu fico por aqui nascendo e renascendo no ano 2099.
Ps- Na foto eu e meu amigo Zopa, Praça do Rosário, novembro, 2011



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