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Lá fora está chovendo


“Lá fora está chovendo / Mas assim mesmo/ Eu vou correndo/ Só prá ver o meu amor/ ela vem toda de branco/toda molhada/e despenteada/ que maravilha/ que coisa linda/ que é o meu amor”. Sempre gostei dessa canção composta por Toquinho e Jorge Ben Jor. Uma melodia simples e suave, cantada com delicadeza por Toquinho, a letra que fala da alegria de encontramos quem amamos e nos faz bem é um convite a celebração de duas pessoas em harmonia de emoções.
Chove um pouco neste domingo em Santo Amaro, é uma manhã fria e silenciosa, ouça “Que Maravilha” e quase posso enxergar alguém correndo toda molhada e despenteada para os meus braços. A solidão às vezes nos faz ter alucinações, nos fragiliza quando idealizamos um amor que acontece no meio da rua, em um dia de chuva ou como, por exemplo, acreditamos que alguém vai saltar da tela do computador e nos abraçar.
Vivemos o tempo dos solitários virtuais, os que se permitem a ilusão de relacionamentos perfeitos, tudo é lindo porque tudo é distante e não há o sal de cada dia, tudo é ruim porque isso também é uma espécie de narcisismo no qual enxergamos no outro aquilo que pensamos ser, enxergamos o perfeito que não somos porque o outro não está ao nosso lado a nos chamar para o mundo duro no qual conviver é também saber ter seus momentos de solidão.
Auto-ilusão bate na nossa aorta e descompassa nossa razão, abrimos para o mundo o que nem sempre o mundo tem interesse em saber, do outro lado uma das maneiras mais fáceis de sermos ignorados é sempre nos inflar, é cômodo dizer o quanto somos lindos ou belos sem nunca termos cruzados nossos olhares, repete-se isso como um mantra e há os tolos que se acreditam Apolos de uma nova era, uma nova era no qual o amor e frases delicadas são mais nocivas que o mal declarado.
“Que Maravilha” fala de pessoas reais, da alegria da chuva, transforma a rotina de uma grande cidade em motivo para celebração do amor: “por entre bancários/ automóveis/ ruas e/ avenidas /milhões de buzinas/ tocando sem cessar”. E nada disso impede que: “ela vem chegando de branco/ meiga, linda, pura/ e muito tímida/ com a chuva molhando seu corpo/que eu vou abraçar/ e a gente no meio da rua/ do mundo/ no meio da chuva/ a girar!/ que maravilha!”
Quem não queria algo assim? No silêncio desse pequeno vale que vivo, olho ao longe a chuva fina a chegar bem devagarzinho, em meio a neblina Toquinho canta, todos os carros param, todas as buzinas ficam em silêncio só para ver o meu amor passar, “a brilhar, que maravilha”.

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