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A Poesia do Submundo

A poética de Josane Peer não nasceu com a escrita, nasceu no canto, na música. Poucos são os letristas de canções que merecem o epitáfio de poeta, Peer merece. Autor de verbos cortantes e imagens aterradoras sobre nossa cambaleante humanidade Peer se insere no contexto máximo de quem faz da arte confissão e fé de ser.
É quase impossível separar Peer da música ou literatura, sabemos o quanto é a música sua paixão primeira, no entanto a palavra sempre lhe foi mais generosa; como foi também com Renato Russo, Jim Morrison, Cazuza ou John Lennon.
O fazer poético de Josane Peer se insere na bem sucedida mistura entre o Romantismo e Simbolismo o que não raro nos oferece uma deliciosa seleta de versos repletos de imagens e mergulhos profundos na alma humana.
Cada verso de Peer é urbanamente hermético, não é uma leitura fácil sua escrita, embora seja um sujeito forjado na essência da cultura pop, Peer é dado os hermetismos clássicos. Pop sim, mas impiedosamente clássico no trato com a língua portuguesa.
Tive o prazer de conhecê-lo e conviver com ele durante anos, pude acompanhar seu incansável trabalho artístico o qual a Bahia não soube reconhecer, pude velo nas escadarias do Centro Educacional Teodoro Sampaio, em Santo Amaro-Ba, compondo instantaneamente inúmeras canções, como se estivesse em profundo transe artístico. Seu talento era inegável tanto quanto seu sofrimento por não se reconhecido ou ao menos respeitado como artista.
É com alegria que vivo esses novos tempos em que as tecnologias felicitam a produção artística de inúmeros músicos e escritores, com alegria vejo o império dos “donos” da cultura desabar.
Um novo mapa cultural vai aos poucos se desenhando no país, novas e antigas vozes antes ignoradas ganham as ruas sem o carimbo das poderosas corporações empresariais, escritores publicam e são lidos sem constar nas listas pré-fabricas “dos mais lidos da semana”, é com alegria que tudo isso eu presencio.
Cultura e Educação andam juntas, mas no nosso país no qual políticas públicas são remendos sociais para maquiar a degradação do próprio Estado Brasileiro e milhões de pessoas são mantidas por esse mesmo Estado artificialmente na ignorância pelos processos de desarticulação da escola pública, publicar um livro é algo a ser celebrado.
Celebremos então Josane Peer por ter vivo sua vida em favor da arte e nunca ter machucado ninguém, celebremos suas palavras, palavras coloridas quando falam de juventude, amizade, infância, sonho e alma; palavras cinzas quando falam de injustiça, dor, tristeza, solidão e política.
Celebro a você meu amigo poeta da urbanidade, da busca constante por si mesmo, pelo amor, pelo submundo que tantas vezes juntos andamos em busca de paz e respeito, celebro tua vida que é arte e construção honesta de uma Utopia a qual teu canto nunca desistiu de buscar.
Poeta a navegar entre os sonhos da juventude e o mundo impiedoso da maturidade, da concreta realidade ao lúdico, da não aceitação da derrota a solidão longe da família, da voz acidamente delirante a compaixão pelo próximo, da palavra em favor da vida a busca pela tão sonhada paz de espírito.
Das guitarras distorcidas a sempre e necessária rebeldia, do fazer solidário de poemas repletos de delicados encontros consigo ao mundo desejado. Assim se faz o letrista, poeta e inegavelmente artista passageiro do tempo: Josane Peer.


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