“Dançando a valsa coma Maricota”

Camões escreveu em um dos seus sonetos  versos que até hoje me causa inquietação e curiosidade: “estou acordado e todos dormem/todos dormem”. Onde o poeta Camões estava quando escreveu esses versos e porque era tomado pela insônia? O que o impedia de dormir? Talvez  uma batalha a ser travada ou sentindo a dor de uma guerra perdida, já que era soldado, talvez uma paixão ausente ou não correspondida?
A insônia é uma praga, é o estar sem ser, um tempo vago e sem razão, ter insônia é ser testemunha de nada, é a angústia de olhar sua rua e ela morta a apavorar os olhos. Insônia causada por remédios, por alguma angústia, pela sensação de perda ou pela busca frustrada.
Seja lá como for, ficar acordado quando todos dormem é um pesadelo. Não consigo sentir nada além do que pavor quando a insônia vem me visitar e prega meus olhos abertos com o desconforto de ficar acordado quando o que se mais quer é dormir.
Muitos escritores já escreveram sobre a insônia, médicos receitam soníferos, algumas pessoas rezam outras bebem, outras como eu, busca nas estrelas contar o tempo e tentar dormir no cansaço dos números e todos nós unidos por uma praga que é tudo e é nada, dona do corpo e senhora do torturado espírito.
Quando eu tinha dezoito anos de idade tive meu primeiro emprego de carteira assinada, jogava lenha em uma caldeira na IMPASA, Indústria de papéis Santo Amaro. Trabalhava de turno, às vezes saía de casa à meia noite e só voltava às seis da manhã, no horário em que todos dormiam eu lutava para ficar acordado, nesse tempo nem sabia o que significava a palavra insônia, para não dormir sentava perto de um exaustor, era um barulho infernal, ele me ajudava a ficar alerta em um lugar que tudo era perigo.
O exaustor me mantinha acordado, dele guardo uns problemas de saúde que nunca me livrei, vinte anos depois tenho nos ouvidos zumbidos que me acompanham vinte quatro horas seguidas e obviamente no silêncio da madrugada fica mais acentuado, insônia para mim além de tudo é ter a sensação que nos meus ouvidos há uma eterna passagem de som entre agudos e agudíssimos sinais de áudio.
Há quem fale com plantas, com os próprios botões, há quem diga falar com os mortos, beba chá de erva cidreira (nome lindo: cidreira) tudo penitência para a fuga da insônia, eu evito uma praga maior, dormir durante o dia, e à noite em plena crise rezo a São Longuinho que mande para mim três minutos de sono, uma cartilha do abc, linda moreninha, dois discos do Sérgio Reis, um pão com leite moça e alguém que cante a maravilhosa cantiga de ninar aos meus ouvidos: “lá vem seu Juca/ da perna torna/dançando/ a valsa com a Maricota”

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