E o tempo passa

Hoje faz 21 anos que meu pai morreu. Era jovem, 42 anos, viveu pouco e talvez tivesse guardado em seu coração alguns momentos de felicidade, talvez tenha sido feliz em sua curta vida cheia de árduas lembranças, porque lembro bem quando ele rememorava sua vida, era algo árduo, não muito prazeroso, como quase todos sertanejos nordestinos e pobres da sua geração a felicidade era em muitos momentos uma palavra sem sentido prático, a vida um desafio.
Meu pai e minha mãe foram (minha mãe ainda é) exemplos perfeitos para mim. Vi minha mãe cuidar de meu pai quando ele já bastante envelhecido precocemente e sem forças parecia ao andar ser levado pelo vento ou por anjos invisíveis segurando suas mãos, vi minha mãe ficar ali do primeiro ao último momento quando nossa casa adoecia junto conosco.
Aprendi então com minha mãe a beleza do amor, de não deixar o barco quando ele começa a afundar, aprendi com minha mãe que quem gosta gosta por inteiro, não há meio amar, meio zelo ou se ama ou se deixa, não há sentimento de pena em quem ama, há compaixão, solidariedade.
Meu pai me ensinou a beleza de ser solidário, estender a mão sem nunca esperar nada em troca. Se preciso passar fome, mas nunca deixar alguém que possamos ajudar ter em si a dor da fome ou miséria. Vi muitas vezes ele ajudando pessoas, muitas vezes também sendo ridicularizado por essas mesmas pessoas que ele estendia a mão, mas nunca guardou mágoas ou se sentiu injustiçado.
Nossa casa foi porta aberta para muitas pessoas, eramos pobres, mas meu pai tirava o pouco que tínhamos e dividia com quem precisasse. Não me lembro dele apegado a nada de material, também nunca o vi professando credo religioso algum ou até mesmo rezando, mas era temente a Deus.
Orgulhava-se no seu trabalho da Rede Ferroviária Federal, primeiro com trocador de dormentes e trilhos com defeitos, depois da doença como vigilante, gostava de ser ferroviário.Viveu rápido, saiu da nossa casa na Rua Barão de Vila Viçosa andando, foi para Salvador, internado e morreu. Morreu como viveu, tranquilo, apesar de tanta dor e uma vida cheia de tristezas, de uma infância sem infância, de uma juventude sem juventude, de uma velhice sem velhice aos 42 anos de idade. Calou-se e se foi... A ele meu muito obrigado pela grande lição deixada que foi: ser solidário  só é vergonhoso para alguém que espera  algo em troca por seu gesto.

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