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Gaetaninho nº 2*

Gaetaninho sempre amou o progresso, achava uma estupidez essa história de patrimônio arquitetônico, para ele todos esses prédios antigos, incluído as igrejas deveriam ser jogados no chão e nos lugares erguidos fabulosos edifícios, com vidros fumês, quem sabe até escadas rolantes e elevadores panorâmicos.
Gaetaninho adorava contar histórias do seu bisavô, Barão de Quaquaqua. O velho Barão sentia orgasmos ao limpar suas botas com óleo das tipas dos seus escravos, notável reprodutor estuprava suas escavas com a mesma costumeira morbidez que currava suas éguas e vacas, sentia orgulho dos filhos bastardos, dizia que eram melhores que os negros trazidos da áfrica.
Gaetaninho contava essas histórias com brilho nos olhos, dizia que seu bisavô era um homem de visão e moderno, lamentava ter nascido no tempo em que os barões de nada mais valiam e que se o velho barão estivesse vivo mandar modernizar a cidade toda, inclusive construindo uma usina nuclear projetada no Feiraguai, assegurava-se assim vez por outra um acidente radioativo, porque para Gaetaninho nada mais moderno que usina nuclear vazando radiatividade, filosofava sentado na sua fossa.
A paixão pelo progresso era a única que Gaetaninho tinha, sonhava com uma cidade cercada de fábricas, poluída, porque para ele o cheiro da fumaça era o cheiro do progresso. Não entendia essa mania do povo da cidade se orgulhar de seus cantores e poetas, para ele artista era tudo vagabundo, se fosse no tempo do barão botaria todos para cortar cana. Gritava alto que violão e poesia não eram coisas de homem, que homem que homem comia chumbo e arrotava cádmio. Era estranho, para Gaetaninho o modelo de homem do futuro era seu bisavô, de qualquer maneira enxergava no truculento barão o homem de poder que hoje fazia falta.
Gaetaninho não se conformava com o fechamento da fábrica de chumbo, a única vez que sentiu o cheio do progresso na cidade, um cheiro de ovo podre que para Gaetaninho era melhor que perfume frances.
Nada representava melhor o progresso para Gaetaninho que o automóvel, aficionado por automóveis, embora descendente de um barão, Gaetaninho era pobre, nunca havia entrado em um automóvel, sonhava com isso noite e dia. Sempre era visto alisando os automóveis estacionados pelas ruas, mas achava que os paralelepípedos da cidade tiravam a elegância das daquelas máquinas mais humanas que muitos corações, bonito mesmo seria se retirassem todos os paralelepípedos e colocassem asfalto, filosofava ele.
Carro e asfalto eram tudo que a cidade precisava para entrar de vez no futuro, a cidade ficaria parecida com Salvador, Lauro de Freitas e quem sabe até São Paulo, pensava Gaetaninho em sua casinha em um bairro sem calçamento, esgoto e paz.
Pelo menos entrar uma vez em um automóvel, quem sabe uma voltinha rápida pela praça do Rosário, de preferência em ruas asfaltadas era tudo que Gaetaninho queria, se fosse no tempo do barão com certeza teria uma frota inteira. À noite Gaetaninho sonhava com carros importados e ele todo elegante ao volante com uma loira paquetá ao lado, passava pela praça da Purificação toda asfaltada, que maravilha, o prédio da prefeitura demolido, em seu lugar uma grande usina de asfalto, tudo era progresso, Gaetaninho estava feliz.
Quando o dia acordava lembrava que não havia automóvel nem asfalto para ele, mergulhava em tristeza com gosto de óleo combustível, sentava no banco da praça e lamentava não ter nem ao menos um fusquinha, ninguém lhe dava uma carona para que ele sentisse o prazer de entrar em um carro. Por que logo com ele, um apaixonado pelo progresso viver daquele jeito?
Certo dia Gaetaninho não acreditou no que seus olhos viam, era o asfalto em plena Rua Direita, aquela pasta negra e quente sendo colocada emocionou Gaetaninho, se tivesse máquina de retrato tiraria fotos, mas Gaetaninho não tinha nada, a única foto sua era da identidade. La longe vinha uma comitiva de carrões, Pick-ups que pareciam importadas, tanta gente branca com seus olhos azuis, Gaetaninho pensou: deve ser gente importante, quem tem olhos azuis sempre é importante, neste momento Gaetaninho teve uma leve tristeza, seus olhos não eram azuis, e embora fosse parente de barão, não era branco.
Lá vinha a comitiva inaugurando a rua asfaltada, o coração de Gaetaninho bateu acelerado como um fusca 68. Chorou, enfim o progresso, correu para abraçar o prefeito.
No outro dia passou Gaetaninho, nas calçadas as pessoas olhavam curiosas, algumas com indiferença, outras surpresas, alguns poucos amigos da babinha estavam com ele, era um momento importante, as rodas do automóvel deslizavam pelo asfalto, Gaetaninho parecia feliz, enfim conseguiu andar em um automóvel, lentamente ia desfilando pelas ruas. O motorista ressaltava que o automóvel balançava pouco, o asfalto aumentava o conforto e o prazer de dirigir. Tudo como Gaetaninho sempre pensou ser, era.
Ao chegar à porta do Campo de Caridade o carro da funerária parou, quatro amigos que estavam no cortejo levaram o caixão com Gaetaninho dentro. Gaetaninho ao tentar abraçar o prefeito foi atropelado por uma bicicleta 1980. Ao cair no chão ainda pensou: não poderia ter sido um automóvel? Bateu a cabeça no meio fio, foi socorrido por uma criança que carregava compras no mercado, levado ao hospital em um carrinho de mão, ficou na regulação, morreu dois dias depois.
*Esse conto foi livremente inspirado em Gaetaninho, conto da autoria de Alcântara Machado.





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