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Sem sacanagem

E foi-se o tempo destinado ao ano quase já velho, particularmente sou avesso a celebrações de finais de ano, esse falso clima em que todo mundo de uma hora para outra se torna um pouco melhor. Se pudesse dormiria até o dia 02 de janeiro, acordaria com todos os espíritos já normalizados pela pura e simples alegria de estarmos vivos.
Vivo, está vivo é bom, isso para mim que tenho quase certeza que nem vivo tão pouco morto se sai desse planeta maravilhoso é sempre bom recitar como um mantra Inca: está vivo é bom. Sem sacanagem, talvez vista branco e ande pela areia da praia, beba uma Sidra Cereser como a mesma alegria de que se estivesse bebericando um champanhe francês. O coração tem em si dessas coisas, o que é bobo aos olhos de alguns para o lado de cá é um carnaval catolicamente devasso.
Não há nada de fraterno em beijar a mão que só se estende para nós uma vez por ano, nada é tempestade, o avançar dos minutos nos livra dos encostos e talvez traga algo de sabor, de amendoim e língua doce.
Somos tão pouquinhos e há as sementes do amor, sempre é bom plantarmos essas sementes e tenho minhas sementes jogadas nas terras áridas de tantos corações. Hoje o sol foi implacável, passando pela porta de uma loja vi um conhecido vestido de Papai Noel, coitado estava tão vermelho quanto sua fantasia.
Rituais fazem a tradição se perpetuar, a tradição faz um Papai Noel torrar no sol do nordeste e para completar cai neve, quer dizer, neve feita com sabão. Quem nos contará ao futuro? Sem sacanagem, nada contra o natal, gosto do menino Jesus e seu eterno nascimento.
Menino Jesus eternamente nascendo, Jesus velho eternamente morrendo na cruz, um personagem duas histórias, qual será o Jesus mais santo? O que sempre nasce ou o que sempre morrer?
Luzes de natal pela minha rua triste, bolo e abraços, falsos, mais abraços e até beijinho no rosto. Sem sacanagens, nessa época do ano lembro do “Natal do Zé Colmeia”, todos os anos passava na Globo, era um singelo desenho que contava a história do Zé e seu fiel amigo Catatau que faziam de tudo para terem uma noite de natal, mas dormiam justamente na tão esperada noite.
John Pierpont viveu e morreu nos Estados Unidos, tentou ser capelão, pastor, político, professor, advogado, filósofo, poeta e comerciante. Fracassou em tudo que se propôs ser, nunca teve sucesso na vida, ao menos no que se entende como sucesso: carreira estável, dinheiros, reconhecimento e às vezes pouco caso com sentimentos pessoais.
Como advogado faliu porque não conseguia cobrar caro dos clientes e não pegava causas que feriam seus princípios éticos, como professor era contra a reprovação de alunos e a castigos físicos, como capelão- militar não suportou a dureza da guerra, perdeu eleições e defendia idéias de igualdades raciais e os direitos políticos das mulheres, como pastor foi contra a lei seca, defendeu as liberdades individuais e a tolerância religiosa, escrevia alguns versos que mesmo publicados nunca lhes renderam um centavo se quer e na filosofia não teve sucesso com seus discursos humanistas, faliu seu pequeno armazém, não conseguia cobrar os fiados.
John Pierpont era aos olhos de todos do seu tempo um completo fracassado. Um amigo seu, talvez tomado de pena, conseguiu para ele um emprego de arquivista em uma repartição pública e assim ele viveu até sua morte em completo esquecimento.
O que tem haver a história de John Pierpont com o natal? Muitos humanistas tiveram o mesmo fim amargo que ele ao enfrentarem as estruturas políticas do seu tempo e no mais ao fim John Pierpont não foi tão fracassado assim, muitas das suas ideias e de tantos outros da sua geração acabaram por serem aceitas.
Um dia, triste e desiludido, ao voltar para casa em uma gelada noite de natal nos Estados Unidos, sem dinheiros para comprar presentes John Pierpont pegou uma folhas de papel e compôs uma canção simples e inesquecível, ele só queria oferecê-la a sua família como presente de natal, John Pierpont compôs uma canção que se tornaria conhecida em todo mundo: Jingo Bells.
Li essa história no livro Insight de Daniel De Carvalho Luz, fiquei tão emocionando, nunca mais esqueci e até hoje neste tempo de Natal, lembro do que pode ter sido e às vezes foi e não percebemos. Sem sacanagem: bom natal.



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