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A flor do tempo

Em uma entrevista no programa Roda Viva Milton Santos falou sobre a coragem de ser só quando se acredita em algo. Ter coragem para viver suas próprias paixões e razões, não se importar se quem parte ou quem chega vai ter com nossa visão de mundo algum tipo de consideração, ter um projeto de vida que é um projeto de humanidade e sem ser para o mundo nossa própria vida um modelo, contribuir para o crescimento do país e da civilidade seria a vocação primeira de quem produz conhecimento.
A grande questão nos debates durante os anos finais de vida de Milton Santos era a Globalização, Fernando Henrique era o presidente e o PT uma alternativa para o país que tinha um Estado cada vez mais fragilizado. O que não se sabia ainda é que o PT no governo aprofundaria todas as perspectivas neoliberais gestadas no governo FHC, o PT se mostrou dócil e feliz serviçal do jogo capitalista liberal a ponto de se orgulhar de ter quitado uma suposta divida com o FMI.
Não ter medo de caminhar sozinho, vibrar com o coração que se alegra quando ao seu lado alguém passa feliz, não sentir as próprias dores como se fossem as dores todas do mundo, minha fome não é a fome do mundo, minha fome é a fome de saber, de ser livre e isso só pode acontecer quando não temo viver só, morrer só, amar só.
Não é um sistema que vai determinar minha felicidade, quem determina minha felicidade é a minha capacidade de dizer não ou sim, de ir além do previsível que me é apresentado como receita de vida. Ouvindo Milton Santos vou aprendendo a viver com o que apenas tenho, não ter meus olhos sobre os supérfluos, é preciso ter coragem para viver e não perder a paixão pela vida, mas sei o quanto o sistema pode me trazer angústias e dores.
Vivo sendo, no gerúndio, e não em um tempo acabado, vivo construindo sobre as ruínas do meu tempo novas esperanças, um desemprego aqui, uma tristeza ali e só deixo de ser, só deixo de viver no gerúndio quando a morte chegar e verbalizar friamente minha vida, por enquanto estou sendo e sendo sou mais de quem vive para ser. Vivo apenas como o essencial o supérfluo não diz nada ao meu coração.
Toda ideia ou planejamento intelectual ou de vida cai ou é profundamente abalado quando há escassez, por isso mesmo o caminho para tirania, ditaduras ou despotismos passa pela escassez, isso é bem dito e cantado por Gonzaguinha: “Um homem se humilha/ se castram seu sonho/ seu sonho é sua vida/ e vida é trabalho/ e sem o seu trabalho/ o homem não tem honra/ e sem a sua honra/ se morre/ se mata”. Esses versos da canção “Um homem também chora (Guerreiro Menino) é de profunda lucidez, sobretudo quando nosso coração bate na contramão do que vive e não nos diz absolutamente nada.
Não ter medo de ficar só ou amar só passa pelo enfrentamento da escassez, saber caminhar com a multidão só é possível se soubermos também caminharmos sem ela, o bem que se deseja é o bem que vai além do momento do agora, a grande simpatia e afeto, penso eu, é o abraço da história.
Contatos: http://edineysantana.zip.net ou ediney-santana@bol.com.br

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