Pular para o conteúdo principal

Para o coração

Chove um pouco, há cinzas pelos cantos, a usina vai moendo cana, o verão já quase termina, bebo algumas doses de esperanças, outras de cerveja e amanheço quase feliz porque o céu fica azul quando o coração transborda esperanças, mesmo que esperanças customizadas neste casamento entre o sabor e a dor.
Não culpo pessoa alguma pelos meus passos sem pressa, pela minha pressa em morrer nas coisas mal nascidas, não sou delírio de rosa alguma, escrevo para não engolir minhas desgraças, não é ser triste, o bem sempre renasce solidão.
Sou um velho medieval guardado no sândalo de algum mosteiro budista, meu nirvana é me negar todos os dias como paraíso ateado fogo, “muruins” dos manguezais da minha cidade tão esquecida dela mesma.
Como se nada tivesse importância à dor navega em minhas veias, corrói artérias, nas células antes fogo agora gelo e perdição do que sou. Meu coração pós-modernidade não registe ao amor enganação dessas tardes de carvão e frio.
Leio Ferreira Gullar deixado aqui em minha casa em esquecimento por um amigo, vou pregando minhas mãos nas metáforas que sempre dizem o que meus ouvidos vomitam quando o olhar febre não diz mais nada.
Escrevo ao carvão alguns poemas que jorram de mim como quem se masturba pela carne fria de uma revista, há quem se apaixone pelo invisível disso tudo, pelo labirinto que é ser sem nos ter, beijo minha língua no silêncio do banheiro, na rosa prata que despenca desse coração antes trovoada.
Toda dor é menos dor quando se pode deixar o tédio do lado direito do coração, não visto roupas que não são minhas, não sei de mascaras ou de cartas não lidas, sempre abro o coração para quem não quer entrar, desisto, viverei só para mim até que a morte bata a porta, me ofereça flores, chame para a festa e me traga o esquecimento necessário aos corações cansados.
Fui ao lançamento do livro da Gabriely Del Fabria, não vi o livro, havia pessoas vestidas como espantalhos, disputando de quem era a pele mais tatuada, disseram que eu estava careta, e não entendia o novo e importantíssimo momento, fiquei triste ao ver gente falando do importantíssimo momento, mas agindo como poetas ripongos e neuróticos dos anos de 1960. Do lado de fora mendigos, crianças cadavéricas, fome e miséria que claro não estão ali para compor o importantíssimo momento, a lisérgia das ruas não entra no atrofiado gabinete de leitura.
Escrevo tão irregular que uma professora de Literatura, professora Evila Santana, disse certa vez que escrevo com um Barraco. Ter a vida irregular, equilibrar-se o tempo todo entre Deus e a luz que só Lúcifer é capaz de nos permitir talvez seja isso um barroco nesses dias em que a idade media digital e inquisições oficializadas pela democracia nos ninam as esperanças.
Deus é o senhor que se faz sempre guia dos seus filhos, Lúcifer é o ser que nos ensinou a construir bússolas e astrolábios, Deus é prisão, Lúcifer liberdade, Deus é amor, Lúcifer prazer, Deus é bondade, Lúcifer egoísmo.
Para o coração chocolate menta, alecrim e sorvete de ameixa, para carne sal e pimenta, língua e despudor, para a alegria egoísmo, para a amizade espelho. Gosto das pontes, a ideia de que algo sempre se liga a alguma coisa, um beijo como razão silêncio, objeto, tarântula na língua e um monte de segredos ditos a meia luz em uma tarde de domingo.
Senhores e senhoras com todos vocês e para você meu boa tarde, até mais uma edição de coração ao coração, paz e alegria sincera neste carnaval de encontros e desencontros que é nossa vida, vida maravilhosa.
Contatos: ediney-santana@bol.com.br ou http://edineysantana.zip.net

Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro Ney, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profund…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…