Serenitate

Talvez nada nos seja tão raro nestes dias de valorização máxima do “ter para ser” do que a serenidade, serenidade rima espiritualmente com equilíbrio e equilíbrio com viver bem, viver bem é ter consigo mesmo uma relação harmoniosa. A natureza por si só já nos oferece todas as pontes para essa harmonia, quase tudo nos liga emoções e desejos, emoção e desejo pedem calma e serenidade, sem isso somos átomos de desordem que dia menos dia desabam em nossas Hiroshima e Nagasaki espirituais.
Quando ando com minha filha pela Purificação sempre pego folhas secas ou verdes para brincarmos, quando uma brisa faz nossas roupas tremularem explico sobre a beleza daquele momento, mostro o chafariz e de como a união do bronze com a água fez algo bonito acontecer, falo com a simplicidade que ela pode entender. Sentir a natureza, buscar essa harmonia entre as coisas animadas e inanimadas e ter respeito por todas elas traz esse tão desejado equilíbrio.
Viver, afinal, é nos relacionarmos com o animado e inanimado, respeitar a natureza, ter os olhos voltados para as coisas delicadas, saber que o peso das coisas pesa também em nossas vidas. Saber que nada disso nos pertence e que somos nós a “coisa” pertencida, nos deixa mais leves, suaves e gentis com nossas emoções e desejos.
Muitas vezes vamos na contramão da seriedade,nossas almas se tornaram porcos espinhos, comemos mesmo quando não estamos com fome, vômitamos nossas indiferenças em cima de quem ao lado grita de fome, o outro não é o amor,o outro é o medo, desejamos ajudar, mas tememos que em nosso rosto a mão da ingratidão estale seu tapa da falta de gentileza humana.
Vivo em Santo Amaro o meu limbo pessoal, faço de cada dia a luta pela sobrevivência e que mais me deixa constrangido é ouvir de algumas pessoas o quanto a felicidade passa pelo aval do mal. isso não é verdade do mal só brota o mal, por mais atraente que seja o mal ele sempre será o mal, mas viver no limbo não é o mesmo que viver o inferno, o limbo é o estágio para outro caminho no qual o mal não bate em coração algum.
Quando era estudante na universidade algo me deixava desanimado: a empáfia de muitos professores e até colegas, era como se ali não fosse um centro acadêmico para o favorecimento da vida, a arrogância de quem tinha um mestrado ou doutorado fazia meus olhos esperançosos olharem para o calendário e desejar o tempo breve para aquilo tudo.
Lembro de uma oficina literária, a estupidez acadêmica do professor ao rejeitar sumariamente os textos dos estudantes, depois ao ler um livro desse mesmo professor notei que o estilo literário que ele ali impunha os estudantes era o dele, a verdade literária dele, Era bruto, estúpido e nada sereno. A poética da licenciatura perde para estupidez acadêmica das teses sobre coisas, fatos ou acontecimentos em que o próprio viver humano é apenas um detalhe.
Serenidade é deixar o “buscar para ser” e “ser para existir”, costurar meus dias na seda leve, evitar o constrangimento da preguiça intelectual, saber que a vida não termina no muro, buscar na alegria da vida pela vida a paz que por fim talvez nunca tenha deixado de caminhar ao nosso lado.
Contatos: ediney-santana@bol.com.br ou http://edineysantana.zip.net







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