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*Solidão urbana

Em “O livro dos dias”, música da Legião Urbana, Renato Russo canta: “todos se afastam/ quando o mundo está errado/ quando o que temos é / um catálogo de erros/ quando precisamos de carinho/ força e cuidado”. Esses versos servem com trilha musical para muitas vidas, quase sempre em um momento de dor o grito dado é um grito solitário, um grito que não será ouvido, a indiferença é o cartão de visitas para um grito que nasce da pobreza e das misérias humanas.
Amar a primeira vista (para muitas pessoas) só faz sentido quando o objeto do amor tem dinheiro, posição social e pode ser ponte para transformações importantes na vida de quem tem por ele algum sentimento planejado e não sincero. Contos de fadas nascem em castelos e não em meio ao lixo das ruas que muitas vezes servem de moradia para quem um dia já foi chamado de “gente”.
Ter o coração sincero e solidário pode às vezes também cegar e não nos deixar notar o quanto estamos caindo no abismo da tola ideia de que somos sempre amados, não há amor ou amizade quando nossas sinceras emoções são apenas pontes para quem quer ser feliz do outro lado da rua. Desemprego, fome ou vícios não combinam com portas abertas, sorrisos ou abraços gentis. Desgraçadamente somos nossas roupas, nossa posição social, nosso trabalho e conta bancária. Na sociedade de consumo o que penso ou sinto não tem importância alguma se eu não puder consumir a mim mesmo ou consumir gente e suas vidas recheadas de supérfluas emoções.
A miséria gera riqueza, mas é uma riqueza excludente, o miserável produz lucro para o pus social em que vive, o miserável que um dia produziu, criou e viveu, agora sem os estafe de cidadão- cartão de crédito passa para a condição de quase gente, fantasma de si mesmo vai gerar lucro quando ao morrer seu corpo indigente fertilizar os índices assistencialistas do governo.
Nossas relações sociais tem nos levado para o equivocado caminho do embrutecimento das emoções, isso é ruim, suicida e perverso para nossa própria condição de “pessoa”. É lamentável que a ferrugem esteja entre nós e tantos outros corações que poderiam ser parceiros nosso na alegria de ter a vida como razão principal dos nossos dias.
Se tenho mais do que o que realmente sou então sou mais aceito, meus erros são transformados em “excentricidades”, minha angústia, solidão ou depressão são colocados com algo “poético”, “um maneira diferente de viver a vida”, dizem que tenho uma “sensibilidade” profunda sobre o mundo. Quando em verdade estou caindo no abismo que é o reino dos tolos que cegamente acreditam em miseráveis sugadores de energia.
A culpa não é só do outro, cada um de nós tem sua própria parcela de culpa com a vida triste que possamos levar, mas a pior de todas as culpas é sermos duros com quem desaba no fosso da vida, nos colocar na posição de senhores e senhoras da razão e do sucesso, compaixão é um dos sentimentos mais sublimes, a pena é uma monstruosidade e auto- piedade a maior tragédia que podemos deixar nossas vidas.
Eu sou, eu não tenho, erro e acerto, não tenho um maravilhoso emprego, eu sou gente, não sou uma licitação pública, não posso fazer nada por você que não seja te respeitar, eu não tenho um conta bancária rica, eu sou o que você está vendo. Sou eu com minha solidão, minha alegria gasta, meu perfume da Cesta do Povo, meu sorriso simplório, minhas roupas surradas compradas na feira livre.
Contatos: ediney-santana@bol.com.br ou http://cartasmentirosas.blogspot.com
*Na foto: Renato Rocha ex- baixista da Legião Urbana, agora morador de rua no Rio de Janeiro.







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