Ensaios

Milton Santos disse certa vez que até hoje foram feitas apenas tentativas para se ter uma humanidade, ensaios, porque segundo ele nunca tivemos humanidade alguma.
A nazi-religião invade televas das TVs, a intolerância religiosa veste todas as cores e mantos, o estelionato cultural faz desmoronar todo um legado imaterial da nossa cultura que deveria ser protegido e preservado. Tudo isso mostra-nos o quanto o modelo de humanidade que está aí não nos serve, não vai além de um miserável modelo social a pregar o ódio e a miséria como forma de garantir a riqueza e poder de uns poucos.
As relações pessoais estão cada vez mais gerenciadas pelo poder econômico ou pela ausência dele. Minha pele, minha alma é cotada pela bolsa de valores da mediocridade. O mediano é o objetivo final neste mundo no qual a excelência é um gueto cercado pela segregação econômica.
Às vezes penso que boa parte dos brasileiros são viciados mesmo é em lixo: lixo religioso, político ou cultural. Basta ser tocado pelo ridículo, grotesco, patético, servido no prato da aberração midiática que tudo isso é transformado em referência para o riso ou dor e o pior: modelo de cidadania, A grande epidemia aqui é o vício no que não presta.
Ensaios: ligo a TV e um desses médicos empalhados em formol fala da alegria do seu projeto social para criancinhas com câncer e logo em seguida pede ajuda em dinheiro, argumenta que se eu doar algo ficarei em paz e com a consciência tranquila, um pastor jura que se eu comprar a “nova” bíblia contendo explicações teológicas feitas por ele mesmo ficarei livre de qualquer enfermidade espiritual.
Ensaios: A educação pública no país (com algumas exceções) adestra, habilita para a repetição, reprodução em massa de gestos e afetos, hora marcada para sorrir, hora marcada para morrer (como cantou Belchior) "sem nunca ter visto a vida", formar para deformação, anular corações e alma. A grande pedagogia é a do martelo no próprio cérebro, homens de lata não vão buscar um coração, meninas em encanto mórbido com um mundo em que o normal é ser igual, o barato é assassinar o grande mágico pedagogo e para sempre ficar no país das insanidades, como guia a estupidez pedagógica único e exclusivo caminho neste cemitério da cidadania que é o Brasil.
No país em que a ausência do pecado transforma todos em santos, cada um faz dos seus infernos pessoais o paraíso exato de vida sem existência e todos se sentem felizes vivendo no inferno coletivo criado aos olhos letárgicos de uma nação que por fim não existe, cada um no seu estado ri das desgraças dos outros estados e todos vivem suas vidas desgraçadas.
Sou de uma geração que sonhou com as pessoas erradas, nossos “heróis” empunharam bandeias vermelhas não para a defesa da vida, mas em defesa de um projeto político o qual não haveria espaço para a felicidade ou qualquer sentimento bom que não pudesse se negociado na visão tacanha e mesquinha sindical que eles sempre acreditaram.
Ensaios: Ter mais coração que fé, negar o misticismo, não ter em olhar algum guia, é preciso um pouco de anarquia para ser feliz, saber o quanto de paixões precisamos para no fim deitarmos em paz na terra que de manto será nosso país real e concreto, paixões para a correção de erros de quem sonhou com pessoas erradas.
Contatos: ediney-santana@bol.com.br ou http://edineysantana.zip.net

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