Pular para o conteúdo principal

Essência


Acreditar em um mundo assentado em dois pólos: o bem e o mal ou par e impa não tem sentido, o mundo não é tão somente assim, entre o bem e o mal ou o par e impa há espaços que podem ser preenchidos com tantas outras razões que vão além do bem ou mal e do estreito núcleo racional par e impa.
O ideal é o que nos faz feliz, e não existem modelos para isso, cada um há seu tempo tem seu ideal de felicidade.
Saber qual o próprio tempo de felicidade é uma maneira de se aproximar de uma convivência possível e pacífica consigo e por consequência saber lidar com um mundo que vivemos e nem sempre escolhemos para nossa parceria, mas que não podemos simplesmente negá-lo.
Como na canção de Violeta Parra às vezes é preciso cantar graças à vida. Saber e ter consciência que a vida acontece mesmo quando estamos ausentes dela, suas lutas políticas nos convidam a guerra diária pela vibração de estarmos aqui.
Racionalismos nem sempre vão nos segurar as mãos quando estivermos nus diante nossa própria animalidade, quando toda cultura artificial e civilista cair por terra, quando sermos só nós e nossas emoções primitivas talvez não nos reconheçamos nesse carnaval de sinceridade que serão nossas emoções.
Passamos tanto tempo tentando nos moldar aos modelos estabelecidos que perdemos a essência nossa, aquilo que trazemos conosco de mais íntimo, nossa alegria primeira, nossa razão não totalitária, até que chega um dia e estaremos esquecidos de quem somos, e qual o sentido das coisas realizadas. Já nos estamos em nós mesmos, somos produtos do par ou impa aceitados como verdades universais, não criamos, apenas reproduzimos como peças na linha fordista desse abandono dos nossos mais sinceros sentimentos.
Essência? Claro, qual a sua? Qual a minha? Por que tenho que escrever poemas como um modernista de 1922? Por que minha palavra deve ser mais imagem que semântica? Por que ao dizer: “eu te amo” deve ser como quem colhe estrelas no quintal? E não como quem ama e tão somente ama? Por que tenho que escrever com arrogância e viver como parnasiano ilhado na sua divindade de papel?
O mundo não é o resumo do par e impa, entre a verdade e mentira há sempre as contradições, entre o bem e mal há o purgatório, entre mim e você há muitas variações para muitos mundos possíveis.
O ideal é o que sempre nos faz felizes e não o que nos abandona em corações alheios com a receita pronta para de tudo vivermos menos a alegria de dizer o quanto de nós pode no mundo livre ser par, impa e o zero que resolve tudo.
Contatos: http://edineysantana.zip.net ou ediney-santana@bol.com.br
A imagem que ilustra essa crônica é de: Beau White









Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Mãos calejadas, meu Deus.

Os escravos eram as mãos e pés dos seus donos, tinham as mãos calejadas do trabalho braçal e penoso nas plantações enquanto os senhores de engenho tinham as mãos suaves. Neste momento aconteceu algo que marcou para sempre a divisão do trabalho: o trabalho braçal e o intelectual, o braçal desprestigiado e intelectual privilegiado. Ter as mãos calejadas passou a significar pouco estudo e baixa qualificação, consequentemente desprestigio social, enquanto o trabalho intelectual passou a ser valorizado, trabalho de “doutores”, de pessoas “importantes”. Essa divisão alimentou e alimenta muitas das nossas mazelas e preconceitos. O presidente Barack Obama disse que não pode simplesmente colocar os imigrantes ilegais para fora dos Estados Unidos, porque o país precisa deles. Nos Estados Unidos trabalho como motorista, gari, baba, diarista, garçonete, frentista ou pedreiro são excetuados por imigrantes, muitos deles brasileiros que aqui não pegariam no cabo da vassoura para varrer a própria ca…