Pular para o conteúdo principal

Seca e a seca

E a terra seca nos diz o quanto o céu nos abandonou neste quase junho, tudo é braseiro e o sentimento de que estamos tão sós quanto Cristo na cruz é o nosso conforto cama prego farpado. A terra amarelada, os boizinhos a esmo pelos campos desertos e crianças: a cena mais comovente, crianças tristes e com algumas gotinhas de lágrimas que de tão pequeninas nem molham os olhos.
Rezemos todos a Santo Antonio, João e José santos juninos. Intercedam por nós, já sofremos de mais, e a dor agora é saca, a garganta sufocada pela poeira pede em silêncio mais que água, pede respeito.
A seca é um fenômeno natural, a fome e miséria não. A fome e a miséria são arbustos venosos plantados longe de onde seus frutos nascem. Tenho um tempo tão finito quanto os que da sede da minha sede bebem minhas esperanças, mas senhor do destino, prezado governador enquanto o senhor bebe água mineral os que são do meu sangue estão a beber desolação.
Não somos miseráveis porque não chove, somos miseráveis porque da misericórdia provamos o dissabor de sonhar com  pessoas erradas, dentro de nossas almas há cactos governamentais, carimbos inúteis, verbas mortas e incertezas. O coração pede: ação, a voz diz que do outro lado da esquina o terrorismo de estado é quem dita às ordens.
Meu São João, são tão poderosos os perversos de coração que a Esplanada dos Ministérios parece a replica do inferno na terra, levam nossas almas ao purgatório dos gabinetes, riem não só do meu sotaque como também da minha fome.
A tragédia não é a seca, a tragédia é da seca se fazer ponte para a consumação da fome infinita de luxo e poder dos cretinos burocratas e suas soluções cretinas para minha sede, para tua sede. Bebemos vento e sopramos tempestades, é hora de um dor que não nasça e tão pouco morra em nós.
A construção de um novo estádio, o presídio para a democracia, a puta e suas fotografias nuas, o suicida da semana, o óbvio que nos serve a dor em banquete de espinhos. São muitas as secas, muitos os que dela vão lucrar, fato é que os pobres são sempre os mesmos.
Eu bebo pó, vomito lixo seco, gozo a seco, como quem goza ratoeira na fome que do lixo faz vida, eu faço vida, eu não sei da vida, minha terra seca, o povo chora, pede chuva, eu peço tempo e chuva.
A seca: falta de chuva, miséria: excesso de criminosos no comando, seca e miséria não são sinônimos, como e devoro a carne podre do caminho, sensação de que por fim quase nada somos, pouco vivemos ou sentimos.
Sentimos uma emoção seca, algo meio pedra e gelo em folhinhas de armazéns, a vida é mais bonita as folhinhas de armazéns, o Pedro da padaria, o pão das dores a procissão de ramos, o pastor e seu terno encardido, minha vida Severina, o olho do mundo, o termo do mundo e nossas dores secas e sós.
Sal, no fogão pedra e sal, sal, pedra, filho vai embora, a estrada é seca, o amor é fuga, o sol não é culpado de nada, o sol é sempre o sol, homem nem sempre é homem, mulher nem sempre é mulher, homem poder ser espinhos e mulher pedra, tudo é coração e há o poder por trás do coração.
A seca não tem culpa, algumas dores podem ser amenizadas, a seca é a seca o governo às vezes é o não governo, o parasita nos sangue, a vida vendida, o homem reza, o santo não escuta, meu deus, é junho e não teremos santo algum para festejar.
Contatos: ediney-santana@bol.com.br ou http://edineysantana.zip.net







Postagens mais visitadas deste blog

"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Como é viver com ódio?

A internet parece ter sido transformada na vitrine do ódio. Sempre encontro bons vídeos e sites na internet com conteúdo interessante e instrutivo, mas esses sites e vídeos têm baixíssimas visualizações, por outro lado sites e vídeos com conteúdo de ódio ou violência têm milhares de acessos. Canais de políticos que não tem nada de proativo ou ideias criativas e práticas, mas explodem de ódio batem recordes de seguidores que expõe ódio, violência verbal e ameaças.   Parece ser um estado permanente de ódio, seja religioso, sexual, político ou cultural, nada escapa ao ódio. Algumas manifestações de ódio são abertas ou diretas, outras são disfarçadas de altruístas, mas todas têm como objetivo neutralizar qualquer voz dissonante dos que esses furiosos ambidestros pretendem. No mundo da violência emocional odeia-se por um único motivo: não há no mundo espaço para concepções socais diferentes das quais a ambidestra cavaleira do ódio defende.   O ódio emburrece, torna bruto corações e mentes…