Senhora democracia e seus cafetões

"O suicídio é o único problema filosófico verdadeiramente sério, pois julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder a questão fundamental da filosofia”. De Albert Camus em “O mito de Sísifo”. Essa reflexão do Albert Camus é espetacular e põe termo em muitas discussões sobre o valor da vida e se temos ou não o direito de nos privar da própria existência, mas hoje vou parafraseá-lo: a estupidez é um único problema realmente filosófico, pois o estúpido coloca em risco não só sua vida, mas  de todos nós.
Eleições são sempre um bom momento para testarmos não só o grau da estupidez de outros eleitores como o nosso também, a estupidez não é “infortúnio” apenas de um grupo, todos nós em algum momento da vida já bradamos alguma estúpida “razão” acreditando fazer a coisa certa.
A questão não é ser estúpido tão somente, a questão é insistir na estupidez, ser incapaz de refletir sobre os próprios atos e o pior: se arvorar a interferir na vida de terceiros, interferência quase sempre desastrosa.
O problema da democracia é que vale o voto da maioria, não importando se a maioria seja a confraria dos estúpidos, no caso das eleições pouco importa se a maioria vende seu voto ou não, não há leis que punam severamente quem vende o voto, há leis que punem quem comprar votos, mas essa punição vai depender muito do próprio capital financeiro do criminoso comprador de votos e do poder da organização criminosa a qual ele pertença e por fim que também controla seu partido.
O melhor da democracia, que é alternância de poder e a escolha livre pelo povo de quem vai exercitar esse poder, vem perdendo forças, já que temos a alternância de pessoas no poder, mas não de programas de governo ou interesses, isso acontece porque embora se mude pessoas os interesses econômicos continuam os mesmos, os dramas sociais são os mesmos.
Uma vez no poder muitas pessoas ou partidos parecem não ter qualquer constrangimento em servir os senhores dono do xadrez social- econômico, ou seja, são apenas instrumentos para garantir o estatus social de uma classe e a negação de perspectiva social em outra.
No Brasil a democracia como a vivenciamos é uma democracia de mão única orquestrada para ser uma anti-democracia, na qual as leis servem para proteger criminosos quando deveriam puni-los severamente. A anti-democracia tem como missão neutralizar a inquietude do povo, adestrar para o servilismo e fazer o mundo irreal criado por ela ser aceito com algo pronto e acabado.
É engraçado, para não dizer trágico, em Santo Amaro todos candidatos a prefeito dizem “amar” nossa cidade, ter pelo povo um infinito “respeito”, mas ao que consta nenhum vive na cidade, todos forasteiros. Assim é fácil, amar à distância, a quem aceita esse tipo de amor cafetão, eu não, aliás, não quero de político alguém amor, quero respeito à diversidade de opinião e ao patrimônio público.
Voto em que anda pelas ruas, quem respira esse ar carregado de chumbo, em quem compra pão na padaria da esquina, quem frequenta os botecos das ruas tristes, quem morre e renasce todos os dias com sua gente.
Não só os candidatos a prefeito não vivem em Santo Amaro, os candidatos a vereadores mais cotados também vivem em outras cidades. Isso é triste e constrangedor.
O voto é norteado por moralismo, etiquetas familiares e pelo poder financeiro. Assim se você for pobre e deseja ser vereador ou prefeito suas chances são poucas, porque para muitos eleitores faltam em você duas qualidades básicas: “tradição” e dinheiro.
Não pense que só o eleitor pouco esclarecido pensa assim, vejo essa postura em artistas, escritores, profissionais liberais e tantas outras pessoas as quais aparentemente poderiam ter uma postura menos estúpida. Vale neste jogo o interesse pessoal, cada um escolhe na sua lata de lixo as migalhas que mais lhe satisfaçam o estômago enquanto a fome da violência, educação e saúde devoram todos.
Quando falei minha intenção de ser candidato a vereador ouvi de muitas pessoas coisas tipo: “sem dinheiro você perde”, “você não faz parte da elite política”, “você não tem cara de político”, “você se veste mal”, “você não apóia candidato a prefeito”, “você não tem postura”. Refleti sobre esse monte de besteira e cheguei à conclusão: sou vitorioso, não me pareço com o estrume político que asfixia a política brasileira.
Contatos: ediney-santana@bol.com ou http://edineysantana.zip.net
A obra de arte que ilustra esse artigo é de: Jean-Baptiste Debret






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