Flor no caos

Quando mais se aproxima mais se afasta do desejado, quanto mais se vive nega-se o próprio viver, quanto mais se busca a felicidade mais a angústia parece ser a estação última de tudo que somos. Essas contradições às vezes parecem ser o resumo de muitas pessoas que fizeram de suas vidas tenebrosas caricaturas de si mesmas.
Todas buscas por felicidade, vida afeição ou amor quando trilhadas sobre ruínas emocionais pouco resta além da sensação enganosa de que se tenta sinceramente ser feliz, isso tudo leva ao inevitável viver e não existir.
Por algum motivo desconhecido por mim algumas pessoas levam a risca aquela canção do Tim Maia: “Alguns nascem para sofre enquanto outros ri”. Muitas pessoas acreditam nessa simples equação determinista, “Azul da cor do mar” é uma canção lindíssima, mas induz ao engano corações emocionalmente fragilizados, não há determinismo nem para felicidade ou infelicidade.
Em “Veveco, Panelas e Canelas”, canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, eternizada na voz de Beto Guedes temos a tradução de muitos sentimentos caros a nossa cambaleante razão, em especial gosto dessa parte: “Eu não tenho compromisso/ eu sou biscateiro/ que leva a vida como rio/ desce para o mar/ fluindo naturalmente como deve ser/ não tenho hora de partir/ hora de chegar/ hoje estou de bom com a vida/ tou em meu caminho”. E você é “biscateiro” ou vida fórmula? Amores fórmulas? Desejos padrões? Pátria, Deus e família?
Desorganizar a ordem não criada por mim tem sido minha paixão. Assim posso ter família, deus algumas vezes e minha pátria é o meu rincão com os que estão aqui nesta mesma não ordem. Viver modelos é não viver, viver sobre definições de terceiros é se definir como otário.
Minhas dores físicas não podem ser caixão e enterro para minhas paixões espirituais, sou além do que tenho como corpo. Quem sabe da intimidade de pessoa alguma? Olhar de fora sempre é confortável, avaliar erros não nossos sempre é mais fácil que tê-los vividos como agulhas em nossa carne.
Desordens pedem ordem, calmaria pode ser também sinônimo de não estarmos vivendo, não há como estarmos em linha reta sempre com a vida (sugestão de leitura: Poema em Linha Reta de Fernando Pessoa), mas estamos vivos, estar vivo é sempre uma chance de sermos muitos caminhos e oferecer à natureza nossa porção solicitude.
Porção solicitude com a terra, beber da água só o que for necessário para matar nossa sede diária de vida, ter com a terra relação de respeito, afinal seremos dela um dia, totalmente dela nos estaremos entregue.
Caos pede ordem e a ordem pessoal nossa de cada dia pede serenidade para vivermos essa nossa caminhada pela terra que será nossa terra, terra em nossas veias, rio e flor serena do caos que por fim é vida.
Contatos: ediney-santana@bol.com.br ou http://edineysantana.zip.net









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