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Pedagogia do terror

O prazer do mal não é vencer você, o prazer do mal é fazer você desistir de continuar lutando pelo seu momento, pelo seu espaço diante a derrota que ele pode te impor momentaneamente. Esse ano professores (as) sentiram na pele e alma toda força do mal e sua peçonha, um poder autoritarista que se ergue sobre os escombros de uma sociedade passiva, autoritarismo que tenta matar de todas as maneiras a capacidade das pessoas reagirem, esse poder autoritário sabe que sucateando a educação sucateia-se também a vida das pessoas.
Foram mais de 70 dias de greve no sistema público de ensino do estado da Bahia, mais 70 dias em que alunos e professores (as) foram expurgado do direito ao debate e ao diálogo, mas foram também mais 70 dias de silêncio de pais e de boa parte de alunos que passivos assistiram o futuro de cada um ser um pouco mais soterrado pela insensibilidade do governo.
Não comemos pedras, cal, azulejos, não vivemos de sonhos. O que nos faz progredir é a harmonia entre o ensino escolar e a educação familiar, sem isso não vamos muito longe, não adianta nada, seus sonhos, orações ou amizades. Sem escola de qualidade você vai marchar para o fracasso, para o limbo de sempre projetar sua vida para o dia de amanhã e o pior: vai ficar a mercê dos cretinos de plantão que tem nojo da sua cor, desprezo por sua vida, que mata sua família quando ela precisa de tratamento médico e encontra hospitais sucateados, ri das suas dores, não faz nada para combater a violência que ceifa a vida de milhares e milhares de pessoas, violência que não escolhe suas vítimas pela cor, poder, religião ou grau de instrução. Se o bem não é para todos, desgraças e morte não é só para quem está no cemitério.
A escola do pobre, do negro, do desempregado ficou mais de 70 dias em greve sabe por quê? Porque o regime de exceção que governa a Bahia quer que o pobre, o negro, o desempregado se explodam. Os filhos deles não estudam no Pedro Lago, Polivalente, Luiz Viana ou Teodoro Sampaio, por tanto para essa gente pouco importa se seu filho tenha aulas ou aprendam alguma coisa, a única preocupação deles é como Funded, ou seja, com o dinheiro da educação que eu e você finaríamos com nosso suor de trabalhador.
A verdade é que nem a sociedade liga para professores e professoras, os bons profissionais da educação passam a vida estudando, geralmente chegam ao final da carreira doentes, com problemas de voz e emocionais e tem de boa parte da sociedade o desprezo, aqui é comum chamar de “doutores” pessoas que deveriam ser chamadas de bandidos, enquanto professores (as) são tratados como lixo até mesmo por parte de seus alunos e gestores, muitos se fazem cães de guarda desse regime homicida que atenta em várias frentes contra nossas vidas, sendo a principal frente à desarticulação do sistema público de educação.
Não importa se você é uma mãe ou pai com dinheiro ou não, com bens ou não, a única coisa que você pode deixar para seu filho é um legado educacional de qualidade, é uma boa formação, sem isso pouco importa o que você seja ou represente. Por isso mesmo todo é qualquer governo que trate com irresponsabilidade o ensino deve ser expurgado, descartado do processo democrático, não trate com gentileza quem quer desgraçar com o seu futuro e o futuro do seu filho. Copa do mundo, estádio de futebol, pinturas em paredes tudo isso passa o que não deve passar em branco é a sua vida, a alegria de no dia da formatura do seu filho ou filha você ter a certeza o quanto o diploma que ele ou ela ostenta na mão é real e não apenas uma posse para um foto.
Paulo Coelho certa vez escreveu: “a felicidade às vezes é uma benção, mas geralmente é uma conquista, é preciso correr risco”. Ao escrever tudo isso aqui eu corro risco, conscientes riscos, prefiro correr esses riscos de ter que no futuro olhar para traz e ver tanta miséria, tanta desgraça colorida e ter a sensação que eu participei disso tudo. Minha felicidade é conquistada, prefiro a solidão, desemprego, a aparente derrota do que compactuar com esse estado de negação de vida, truculência, medo e terror.
É desolador, constrangedor saber o quanto estamos ancorados no atraso, na mais-valia da miséria de um regime político moribundo e incompetente, gerenciador desse desastre pedagógico, mas é mais triste saber o quanto neste momento eles venceram, a letargia bate nos corações ora como covardia, ora como omissão, ora conivente e em muitos casos apenas espelhando um sistema educacional que educa para o nada.
Vai começar mais uma campanha eleitoral, no lugar do debate de ideia, das propostas, do respeito ao eleitor o que vamos assistir mesmo é o abuso econômico, ameaças e atentados contra a vida, mas é nessa hora prezado amigo e amiga que você não deve esquecer das dores e humilhações. Exerça seu direito democrático de votar, eles usam a coação, mentira, xingamentos e ameaças para se manterem no poder, mas você tem uma arma poderosa: O voto. Ele é a defesa da sua vida e da sua família.
Dedico esse texto a memória do meu amigo Professor Cruz.

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