Pular para o conteúdo principal

“Eu não sou cachorro não”

Lembro certa vez na universidade (UEFS) o professor Robson levou um texto que satirizava a divisão em castas da música no Brasil. O texto contava a história de um estrangeiro que era orientado a dizer que conhecia Caetano, Milton, Chico e Gil e deveria demonstrar desprezo por cantores populares como Zé de Camargo, caso contrário poderia ser marginalizado pelo meio “cult” e preconceituoso da “intelligentsia” do país.
No livro “Eu não sou cachorro não”, Paulo Cesar de Araújo pesquisou muitos fatos envolvendo artistas populares que durante a ditadura militar foram perseguidos, tiveram musicas censuradas e, no entanto foram sempre taxados de alienados ou de gosto musical duvidoso.
Isso aconteceu e acontece não só na música, na literatura é a mesma coisa, se você não for parte da corte universitária ou pousar de pós- moderninho ou ainda se for oposição a estética estabelecida do que dizem ser representação do seu tempo dificilmente vai ter algum espaço para divulgação da sua produção artística e se divulgar talvez fique sem resposta, afinal não é de bom tom dizer que se gosta de Aldair José quando a nossa formidável música foi fossilizada entre tropicalistas e os chatíssimos da bossa nova.
A liberdade do gosto foi estabelecida pela internet e facilidade da produção cultural pelos meios tecnológicos. Foi-se o tempo em que jabás e empresários ditavam ou criavam movimentos e empurravam ouvido adentro suas verdades culturais.
A indústria do entretenimento sempre vai existir: livros para serem lidos na velocidade de um café da manhã, música para animar o carnaval, filmes para justificar desvio de verbas públicas, enfim tudo isso vai sempre existir, o que não se pode é fazer recortes do que se deve ou não ser estabelecido como linha de bom gosto e representação geral de um povo e negar o direito que tenho de dizer que gosto de Amado Batista, amo minha coleção em vinil do Milton Nascimento, gostaria de cantar como Ney Matogrosso e sou encantado com Cascatinha e Inhana. Em minha razão cultural todos convivem muito bem.
Cultura é uma coisa, indústria cultural é outra, indústria cultural é caricatura do fazer cultural de um povo, cultura é a representação de todo o histórico de vida e trabalho de uma gente, surge espontaneamente e não pode ser fatiado como carne de jabá (com o perdão do trocadilho) e servida na relação das dez mais de uma FM qualquer.
No fim tanto tropicalistas, jovem guarda ou até o movimento Punk se não foram criados pela indústria do entretenimento foram re-criados por eles, cada um ao seu modo foi caricaturado e a liberdade criativa era do tamanho do diâmetro de um vinil produto máximo dessa mesma indústria.


Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

Livros. Bendita seja minha mãe que aos livros me apresentou, benditos livros que não me tornaram parte do lado doce da vida, mas também não me deixaram afundar no lodo existencial.  Bendita sejam todos letrados ou iletrados, benditos sejam os olhos "cegos" do meu pai que foram os guias dos meus passos, bendita seja cada letra do alfabeto, cada virgula, ponto, travessão, exclamação, dois pontos para me levarem ao mundo sem dor. Benditos sejam os anjos das vogais, os doutos das consoantes, Bendita seja minha professora Norma e sua doce alegria que na minha adolescência me mostrou a poesia da gramática, bendito seja meu professor Anchieta Nery  que me disse:  -Você é poeta. Bendita seja a noite, a sempre noite das minhas insônias, as tristezas amigas, o espelho que não me reflete, bendita seja a fé que não tenho,  esteja comigo para que na hora da minha morte eu não sofra o que já sofri pelas horas da vida. Benditos sejam os amores,  paixões,  verdades,incertezas da vida, gran…

A onda da mediocridade

Não acredite nesta história de "onda azul ou vermelha". Frases como essas foram criadas por empresas de propagandas, elas querem convencer você a votar da mesma maneira que nos induzem a comprar tal marca de cigarros ou cervejas. Essas empresas de publicidade não estão preocupadas com sua cidade ou sua felicidade, querem que você descida pela emoção, enquanto você ataca com sua emoção quem defende a "onda azul" ou quem defende a "onda vermelha", criando um clima de justiçamento político não enxerga o óbvio: as mentiras que são contadas, inventadas para que você se sinta bem estando de um lado ou outro, para que você tenha orgasmos políticos, como se realmente fizesse parte da mudança prometida, mas você é só uma ponte para que um grupo ou outro chegar ao poder. A “onda azul" e a " onda vermelha" são motivadas não por um sincero sentimento de esperança, realização ou sentimento cidadão, são motivadas pelo desejo de poder, é só o que aliment…

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys

O que Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys têm em comum? Todos são ex-empregados da Rede Globo. O Buarque e o Wyllys se dizem de esquerda, Veloso é...é... Olha quem sabe, porém quem nemnem. Pois bem. Há quem acredite que "gênios" se fazem sozinhos, que eles têm o poder mágico do talento e só isso basta para que tenham reconhecimento e sucesso. Não é. Sem o poder da Rede Globo nunca essas pessoas teriam o alcance que tiveram e duas delas levantariam dúvidas sobre a suposta genialidade atribuída a ambos. Dez entre dez pessoas “super inteligentes” “cabeças”, “imunes a manipulação da mídia golpista” têm no trio citado aqui algo que chamo de esquerdismo cristão. Conheço até pessoas que recusaram participação em programas da Rede Globo, acreditando assim estarem contribuindo, como bem cantou Raul Seixas, “para ao nosso belo quadro social”, mas rezam na cartilha de crias da própria Globo. Jean Wyllys é um pouco mais velho que eu, mas somos da mesma geração, militei anos n…