Os Esquecidos dos Bondes

O memorialista e cronista Tute Pedreira acaba de lançar “Os Esquecidos dos Bondes”, um delicioso volume de crônicas que nos leva ao universo saudosista-mágico do autor, apresenta um recôncavo não oficial, com personagens do povo e animais como mulas, jumentos, bois, éguas e vacas quase que humanizados e sendo eles também protagonistas de muitas histórias e aventuras inverossímeis, mas o autor jura que aconteceu e ele mesmo e testemunha dos fatos narrados.
Os Bondes da Trilhos Urbanos (serviço coletivo de passageiros de Santo Amaro) foram eternizados em uma canção de Caetano Veloso, na crônica que também é o nome do livro Tute Pedreira nos diz: “ Assim , fico por aqui, lembrando aos saudosistas que sem os burrinhos, os bondes não andavam”. E é lembrando dos esquecidos que Tute re-ver sua vida, infância, adolescência e maturidade tudo com bom humor, na prosa de Tute não há espaço para tristezas.
Em Os esquecidos do Bonde desfilam nomes como: Beto Fubuia,Isolda, Ariston Batureba ,Joaquinzinho da Cangalha,Chico do Bode,o inesquecível Bodaça (e seu brega), Otávio Mão de Vaca (seu parceiro em aventuras e desventuras etílicas),Lalau,Mimi Boa Franga, Zé Feijó,Pinto Gato-Gordo,Nego Exun e Cabuiti são alguns passageiros desse Bonde e representando a bicharada o espetacular jegue japonês Nataka Tushia tarado e vil por natureza.
Neste Bonde não há espaço para figuras tradicionais de Santo Amaro e do recôncavo como barões ou personalidade sacralizadas pela literatura oficial, aqui está o recôncavo e sua gente por trás das estrelas, que cultivam a terra, vivem a vida pela vida, pela ação do sobreviver a cada dia, gente simples do campo, das usinas, da labuta nos pastos, que se divertem com uma simples corrida de jegue ou com um pandeiro e uma garrafa da cachaça.
Tute Pedreira é de família tradicional aqui de Santo Amaro, conhece os dois lados dessa gente, mas escolheu viver a paixão do lado mais simples, o lado que o transformou em escritor e o mais importante, que o levou a registrar de maneira sublime e despretensiosa algumas passagens desses personagens que fazem à história, mas acabam por não entrarem no Bonde dessa mesma história. O povo é o singular de muitas paixões, os heróis por sua vez têm nome e sobrenome e poucas vezes são questionados se são mesmo tão importantes como foram eternizados pela tradição histórica.
Então Os Esquecidos dos Bondes faz justiça a essa gente morena cortadeira de cana de açúcar, vaqueiros, donos de bodegas, seresteiros, trabalhadores de todas às horas que aqui foram reunidos para uma deliciosa prosa regada a cachaça, viola e muita saudade de um tempo que continua no gerúndio nas periferias e roças desse Brasil sem bondes ou trilhos.
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