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A pena do sempre

Talvez seja o gênero a única coisa que para sempre viva, o gênero sobrevive ao indivíduo. Nós morremos, o gênero humano não. Ao menos por enquanto nossa espécie vai continuar sua caminhada por aqui.
Uma planta, um sapo, eu ou minha gata a brincar inocente no quintal entre as folhas secas somos todos passageiros, solitariamente passageiros enquanto indivíduos, mas o gênero que cada um pertence não, não por enquanto ao menos não nesta nossa geração. A grama vai continuar crescer, crianças nascerão e há sempre algumas flores na praça.
Criamos a arte na tentativa de nos deixar um pouco mais pelo tempo da memória e traçarmos um dialogo com o futuro, a arte é uma maneira de estarmos aqui como gênero humano. Na impossibilidade de sermos nós sempre indivíduos vivos a arte nos revive nas paixões alheias enquanto naufragamos nesta periférica existência. O centro é o gênero, o resto é periferia.
Preservar nosso gênero e o gênero das outras espécies é participar positivamente da construção da nossa identidade coletiva, não há vida que se baste sozinha, na beleza das nossas contradições vivemos coletivamente a razão de estarmos no mundo.
O momento depois da vida é a própria vida, quem se vai nos braços do que chamamos morte renasce na realva, nas moléculas de outras criaturas, nas tintas de um pintor, bate no coração de uma nova vida, quem se vai sempre fica na gota de orvalho, na estrela que acaba de nascer, quem se vai renasce para um novo gênero de vida.
O sentido de sermos é preservar nosso gênero, ser sem deixarmos de ter para com esse gênero maravilhoso todo respeito e buscar com os outros gêneros de vida toda harmonia que nos traz o equilíbrio de aqui renascermos sempre.




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