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Carta a Letícia Palmeira

Tem dias que o melhor mesmo é nos recolhermos ao singular do que somos, fazer do próprio coração caverna abrigo para nossas mais modestas paixões e nos esquecer da linha tempo tempestade na sua verdade ácida que nos esfola lágrimas. Ouço Corelli, me permito a sua leveza, leveza tão cara ao meu espírito arame farpado, mas há em algum lugar um céu tão doce quanto a melodia quase silêncio que aqui escuto.
Caio do quarto andar direto na folha seca a brigar com meu desassossego, sou relâmpago que não fere, dor a não sangrar corpo estranho, tudo que é ácido é só meu. Brinco na cama vazia, nasci para a mais profunda solidão desses momentos gelo e morangos pedra sabão.
Nem todos nascem para a ciranda de ser com outro feliz, nasci para encerar em mim minhas paixões, cansado minha alma enferruja, escrevo quase palavras e nesse quase traduzo minha cansada verdade de que sou e não existo.
Talvez devesse escrever autoajuda, mentir para mim. Ri sabores azedos na clama gasta, talvez fosse verdade as mentiras contadas, os cárceres sentimentais, palavra sem poesia, poesia sem palavras, tudo uma questão de farsa e dor.
Ser sabor é ter sabor, não ficar ao sal alheio colhendo migalhas, tão simples e tão cáustica razão, uma nudez vampiresca, santa fé sem deus nos olhos e satanases no coração, mas quem nunca buscou a si e encontrou um porco espinho?
Nada de dores, só café frio, gelo na noite, carne de sempre, sempre ali deitada na cama pedindo vinho. Gira meu vinil, gira, me leva junto, leva para o incerto coração, faz coração do meu dengo sombrio.
Escrever cartas como se elas fossem um eco, voltam sem respostas, das respostas que já foram escritas, prepara-te coração para navegar sem retorno. Prepara-te para viver esse tempo incerto das belezas já findas, do dia a nos sorrir.
Coração ilha quando velada cantiga se faz parte do que seremos amados ou não, viva, vivo, beijo e me vou, amigos enfim, até que o tempo nos separe, reza ao pai, deixa o filho dormindo, não acorde estrelas com teus passos bêbados.



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