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“Laissez les bons temps rouler”*

Tenho minha realidade e há para além de mim outras tantas realidades, se eu nego todas realidades e imponho a minha sou um selvagem para comigo mesmo e um predador de tantas outras realidades, sem falar na séria possibilidade da loucura como razão da minha vocação tirânica.
Em política há muitos conflitos e interesses, mas há apenas uma sociedade, dentro dela há divisões políticas criadas artificialmente, pior que isso, artificializaram vidas, fizeram do idealizado o real, fica para a maioria das pessoas um vácuo sombrio em que se habituaram a chamar de “existência”.
Nenhum caminho é construído por si só, cada passo deixa marcas de tantos outros possíveis caminhos os quais podemos percorrer. Sozinhos é pouco provável irmos para além do que pensamos ser, a felicidade é um estado de espírito que só se realiza na coletividade, queiramos ou não, como canta Tom Jobim “é impossível ser feliz sozinho”.
Passei minha vida toda na pequenina Santo Amaro da Purificação, então minha realidade mundo se resumia em algumas ruas e praças. Com o tempo aprendi a viver neste meu lugar como se todo o mundo estivesse aqui, assim Santo Amaro era minha Nova Orleans: rica e pobre, cultural e provinciana, feliz e amarga. O mundo que vivemos também é o que sentimos profundamente como nosso sem perdermos de vista a realidade da casa grande e sua brutalidade social.
Com quase quarenta anos sinto ainda aquela chama da juventude e suas inquietações, talvez para alguns corações essa chama seja sempre intensa, lembro-me de uma canção do Belchior “como é perversa a juventude do meu coração”, agora já sei o que ele quis dizer.
A realidade como uma canção de Saint-Preux às vezes é menos amarga, traz certo consolo para aquele momento no qual pouco resta para ser feito a não ser viver. E Viver é a máxima realidade, não há outra opção, não há fuga, nem mesmo a morte nos tira da vida, mortos somos paisagem para outras emoções em olhares que talvez nos olhem com piedade ou indiferença, a morte nos faz cenário para tantas outras nuances da vida.
Parafraseando Fernando Pessoa, é preciso pensar também que a vida é para viver e não pensarmos nela, viver é mais que pensar, é agir, isso não quer dizer que não devamos planejar nosso viver, não é isso, quer dizer apenas que viver é preciso e urgente.
* “Deixa os bons tempos rolarem”, lema dos moradores de Nova Orleans


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