Ao luar com alegria

Nedina Santana
Ontem morreu minha tia Nedina Santana. Viveu a vida toda no mesmo lugar: nos sertões da Bahia, foi vivendo com seus tantos filhos, netos e bisnetos até que o câncer a levou sem antes tortura-la em dores profundas. Qualquer doença fica mais terrível quando se é pobre, pior quando se é pobre e se vive em um país como nosso no qual “pobre” é o nome genérico para definir pessoas que tem quase importância zero para o governo.
Ser pobre, ganhar um parco salário por mês, não me envergonha. Minha condição social não me faz sentir vergonha alguma, sou um batalhador pela vida e como o pão com o suor honesto do meu rosto. O que me envergonha é saber que pouco a pouco sou vencido pelo meu próprio país, que as senzalas do passado agora são outras, erguidas pelas mãos de um Estado parasita que se nutre dos nossos sonhos e esperanças.
A inércia do governo brasileiro em resolver nossos graves problemas de saúde, educação e segurança é fruto de uma política nazista de sustentação no poder de muitas facções criminosas acoitadas em quase todos partidos políticos desse país. Deixam-nos morrer, nos deixam na sempre esperança de dias melhores e celebram nossos funerais com seus risos cínicos e discursos encomendados repletos de frases feitas que debocham das nossas dores.
Certa vez uma amiga minha, Marly Bitencourt, me corrigindo disse que não somos pobres, somos empobrecidos. Sim ela ta certa, não somos pobres somos empobrecidos artificialmente pela articulação de um Estado que para engodar seus parasitas nos mata, nos rouba, nos escraviza.
Todos os dias pessoas como minha tia Nedina morrem não necessariamente por doenças, mas pela ausência de tratamento público ou um tratamento medíocre baseado paliativos e não cogitam cura alguma. Acho constrangedor ler no jornal magníficas descobertas da medicina, acho constrangedor porque essas magníficas descobertas não vão chegar aos hospitais públicos, não vão chegar não por falta de recursos financeiros (pagamos uma altíssima carga tributária e milhões de reais estão supostamente investidos na saúde pública) não vão chegar porque a meta do governo não é nos oferecer tratamentos decentes a pessoas como nós e sim paliativos, para nós o governo diz ser caro em demasia alguns tratamentos, mas para turbinar o bolso de milhões de bandidos com esse mesmo dinheiro o governo faz vistas grossas.
Lamento por tudo isso, pelo fracasso da nossa nação ilhada em egoísmo, pela morte trágica dos sonhos e esperanças, pelas diferenças sociais falando mais alto que o amor e compaixão, pela cultura usada para separar e não unir, pelo labirinto em que o bem parece ter se perdido enquanto o mal nos corteja a cada esquina, pela ausência de solidariedade, pela tragédia de um Estado sem traço algum de humanidade, pelo espírito vencido pelo materialismo.
Ficou aqui com boas lembranças da minha tia, ao luar no quintal da minha casa no Sacramento escrevendo e pensando que talvez seja justo em algum lugar pessoas boas ao morrem se encontrem sem dor, sem tristeza. Talvez neste momento minha tia Nedina  esteja com seus pais, com minha tia Maria e meu tio Norato seus irmãos, com meu pai e tantas pessoas boas que se foram pelas mãos de tantas dores.



Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys