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Berliner Ensemble *

Estou farto das celebridades, canonizados e tudo que for referência, me interessa os bêbados anônimos que tombaram carregando bandeiras, os fuzilados do cemitério central, as prostitutas que fizeram amor e poesia com maridos alheios enquanto suas mulheres nada sabiam de sexo e poesia.
Quem foram os carregadores desses andores, quem fez do próprio coração altares para os santos da última hora? Quem foram os operários que encadernaram os primeiros livros de Marx? Quem foram os copistas das pecadoras escrituras?
Quero minha gente anônima, o talento de quem fez o mundo e nele não viveu. Quem são os engenheiros que pensaram esse computador, quem me deu a liberdade da internet? Estou farto das estrelas, quero os que tiveram brilho tão pequenino e fizeram coisas grandes.
Quem são as enfermeiras que ajudam os médicos nos hospitais? O sapateiro da bailarina famosa, os policias honesto a proteger nossas vidas?
Quem fez essa cachaça que me traz estrelas? Quem ensinou o Agnaldo Timóteo a falar mais que cantar? Quero a voz dos inimigos, os espíritos sem inferno ou paraíso, o abraço do desconhecido. Ao inferno os mais vendidos, os premiados, os sacanas da TV, estou farto dos que sempre estão a ri nos programas de auditório, não me levem flores da floricultura, colham as tristes violetas de beira de estrada.
Quero o amor delicado a chegar de mansinho e aquecer meu coração. Quem são os trabalhadores letrados de Berthold Friedrich Brecht? Quero beber café estilizado com Brecht no Bistrô do Miúdo. Tudo é calmo essa manhã eu e minha mãe em universal solidão, quem nos fez triste? Que canção nos desenha essa tristeza?
Sou o mundo, mas também sou eu e como eu estou farto das ruas programadas para nos tirar a elegância de dizer não, quero amor e tão somente amor. Não há verdades no paraíso, talvez o inferno seja nossa hermética dose de amor profundo.

Ouço “Os Verdes Campos da Minha Terra” é um solitário trem que corre por trilhos invisíveis, passeia pela minha infância na qual quase todas as pessoas que amo ainda estavam vivas. Era noite de São João como um poema de Manuel Bandeira, o trem que deseja me levar de volta para inocência dos meus dias, o presente é uma roupa que não me serve mais.

Coração inquieto não morre de tédio, monto na bruxa vassoura e saio a varrer o meu quintal. Ontem minha filha cantou uma canção minha, momento mágico para canções de pouquíssimas vozes. Belchior canta e me diz o quanto à felicidade desde os tempos do Beatles é uma arma quente.
Hora de dormir, deixo meu coração aberto para o amor de nunca fazer mal, o amor que é sereno e abraços fraterno de sermos um, dois e um milhão de quase amigos cantando aqui comigo.
* Companhia de teatro  fundada por  Bertolt Brecht e sua mulher a atriz Helene Weigel, em janeiro de 1949.


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"A felicidade é uma arma quente”

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