Triste professor do nordeste

Sou professor no nordeste do país, nunca fui além do meu lugar poeira no mundo, então minha realidade é essa poeira ignorante servida em cartas pedagógicas pela marginalidade política do nordeste, minha esperança há tempos tragada pelo urubu agourento sentado na linha do horizonte me diz que estou entre o limbo social e o inferno de não mais me reconhecer como útil em uma sociedade que escolheu a decadência ética como base promíscua do seu moralismo doente.
Ao entrar em uma sala de aula engulo a seco minhas dores, qualquer tipo de vaidade, engulo o arame farpado da indiferença que sou sempre tratado, encontro entre as trevas do desconsolo fragmentos da minha esperança e cumpro meu papel: educar sem esperar que o outro tenha por mim qualquer tipo de respeito e afeição, mas na esperança que ao menos esse outro seja alguém melhor do que eu fui e ainda sou.
Minha desgraça pessoal em hipóteses alguma pode ser transferida aos meus alunos, ser professor é também ser ator, acreditar que frases de Paulo Freire em um cartaz sujo e mal feito na diretoria da escola faz dessa escola uma escola real, eficaz e feliz.
Nunca ouvi o secretário da educação falar em vida, amor, abraço, calor humano, paixão e beleza interna dos corações, essas coisas também movem o sentimento pedagógico. Ele não sabe o que é isso, as secretarias de educação foram transformadas em máquinas de triturar pessoas, enquanto a população tola se encanta apenas com que seus olhos conseguem enxergar e entender seus filhos são gestados para ignorância, para ser tornarem pessoas brutas.
A elite financeira garante suas novas gerações de políticos, médicos, escritores, poetas, advogados, engenheiros e doutores etc. Para a população empobrecida o governo garante novas gerações de dependentes do Bolsa Família, das cotas sem reforma na educação de base, dos milhares de jovens pobres e negros mortos todos anos por grupos de extermínios que agem livremente pelo país.
O governo garante seu velho curral eleitoral e ainda assegura a limpeza ética e intelectual da população utilizando de técnicas mafiosas e nazistas de controle social. No meio disso tudo há os professores, nenhuma classe trabalhadora foi tão politicamente esvaziada do seu valor e sentido quanto os professores.
Não pense que os governos fazem isso tudo sozinho, ele tem cúmplices, começa com o eleitorado negociante não só da sua vida, mas de todos quando vende seu voto, o eleitor que vende seu voto é um criminoso, parasita social e não pode e não deve ser chamado de cidadão, o político que compra votos é um facínora, mais perigoso que qualquer traficante, que qualquer bandido líder de quadrilha, o político que compra votos ensina aos seus filhos o quanto ser canalha neste país pode ser lucrativo, esse tipo de gente deveria apodrecer na cadeia.
Não pense que nas escolas só há pessoas reféns desse estado triste de coisas, la também os governos fascistas tem poderosos aliados, esses aliados  cultivam a indiferença humana para com alunos e professores (as) não alinhados (as) ao regime político em vigor no momento.Sim, regime político do momento, porque é uma questão de parasitismo político e não ideológico,mudou o demônio eles mudam de devoção.
Há algumas palavras mágicas que transformam muitos professores “progressistas” em tiranos de primeira grandeza: coordenador, diretor e vice-diretor ou assessor e se essa turma for aparentada do prefeito ou de um vereador poderoso é que a miséria faz a festa.
Enfim todo cargo que deveria ser ocupado por gente com controle emocional e rígida formação ética e profissional geralmente é negociado no mensalão do emprego entre vereadores e prefeitos e aí que se dane seu filho e coitado dos professores aliados tão somente com a boa pedagogia da formação cidadão. Cidadania é palavra maldita neste país, não acredita? Diga a um policial que você é cidadão e merece respeito, diga a um juiz que ele deve respeito a você e sua cidadania. É só entrarmos em um fórum para logo notarmos o quanto nem todos são iguais perante a lei.
Se algo de bom acontece nas escolas públicas não é por causa de governo algum, de coordenador, de secretário algum, de assessor algum, de prefeito algum, de governador algum, essa gente só faz o que o povo viciado na sensação de felicidade entende como progresso e trabalho: pintar e repintar escolas e empregar gente que na maioria das vezes nem de bois e vacas saberiam cuidar quanto mais de gente. Se alguma coisas vai bem na escola pública é por causa de bons e infelizmente poucos professores e professoras que se dedicam ao máximo para formar, educar pessoas, professores e professoras que tem na criatividade e devoção pela educação grandes aliados. Então papai e mamãe quando você encontrar um professor pela rua diga-lhe ao menos “bom dia”, tenha certeza ele faz mais pelo seu filho que ensiná-lo a dizer bom dia.








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