Aos vivos com carinho

Meus mortos estão comigo: as células de minhas avós estão na minha pele, o coração solidário do meu pai bate no meu peito, o gosto do meu tio pela alegria de beber umas e outras estão comigo nos meus momentos de lazer, os mistérios do meu avô são a essência da minha poesia, o violão do meu tio ainda toca aqui no meu dedilhado solitário, a sabedoria da minha vó me guia por esta vida tão doce e tão perigosa, minha bisavó Maria ainda colhe suas mangas no quintal toda vez que eu planto alguma semente boa na terra, meu tio revive na simplicidade da vida que sou.
De alguma maneira somos todos eternos, não deixamos de ser quando ao pó nossos corpos são levados, estamos nas árvores, nos sorrisos da mãe que acaba de receber seu filho no colo, na alegria do girassol, na paixão do escritor pela página em branco na qual ele escreverá sua história.
Temos nosso tempo de vida nesse maravilhoso planeta, temos também nosso tempo de irmos embora para que outros cheguem, mas revivemos nesses outros que vão usufruir não só da natureza, mas das coisas que aqui deixamos.
Meus mortos nunca se foram, assim como os mortos dos meus mortos nunca morreram.
Geração após geração eles continuam de outra maneira a jornada pela vida, assim como eu um dia vou viver no sangue,nas emoções, nas buscas de tantas outras pessoas que estão esperando para nascer e um dia viver suas próprias paixões que também foram as minhas.

Postagens mais visitadas deste blog

Mãe

A onda da mediocridade

Caetano Veloso, Chico Buarque e Jean Wyllys