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Aos vivos com carinho

Meus mortos estão comigo: as células de minhas avós estão na minha pele, o coração solidário do meu pai bate no meu peito, o gosto do meu tio pela alegria de beber umas e outras estão comigo nos meus momentos de lazer, os mistérios do meu avô são a essência da minha poesia, o violão do meu tio ainda toca aqui no meu dedilhado solitário, a sabedoria da minha vó me guia por esta vida tão doce e tão perigosa, minha bisavó Maria ainda colhe suas mangas no quintal toda vez que eu planto alguma semente boa na terra, meu tio revive na simplicidade da vida que sou.
De alguma maneira somos todos eternos, não deixamos de ser quando ao pó nossos corpos são levados, estamos nas árvores, nos sorrisos da mãe que acaba de receber seu filho no colo, na alegria do girassol, na paixão do escritor pela página em branco na qual ele escreverá sua história.
Temos nosso tempo de vida nesse maravilhoso planeta, temos também nosso tempo de irmos embora para que outros cheguem, mas revivemos nesses outros que vão usufruir não só da natureza, mas das coisas que aqui deixamos.
Meus mortos nunca se foram, assim como os mortos dos meus mortos nunca morreram.
Geração após geração eles continuam de outra maneira a jornada pela vida, assim como eu um dia vou viver no sangue,nas emoções, nas buscas de tantas outras pessoas que estão esperando para nascer e um dia viver suas próprias paixões que também foram as minhas.

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"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

Como é viver com ódio?

A internet parece ter sido transformada na vitrine do ódio. Sempre encontro bons vídeos e sites na internet com conteúdo interessante e instrutivo, mas esses sites e vídeos têm baixíssimas visualizações, por outro lado sites e vídeos com conteúdo de ódio ou violência têm milhares de acessos. Canais de políticos que não tem nada de proativo ou ideias criativas e práticas, mas explodem de ódio batem recordes de seguidores que expõe ódio, violência verbal e ameaças.   Parece ser um estado permanente de ódio, seja religioso, sexual, político ou cultural, nada escapa ao ódio. Algumas manifestações de ódio são abertas ou diretas, outras são disfarçadas de altruístas, mas todas têm como objetivo neutralizar qualquer voz dissonante dos que esses furiosos ambidestros pretendem. No mundo da violência emocional odeia-se por um único motivo: não há no mundo espaço para concepções socais diferentes das quais a ambidestra cavaleira do ódio defende.   O ódio emburrece, torna bruto corações e mentes…