Aquário

Hoje meu tempo estava febril, minha alma de longe olhava a ausência de sentido do meu dia em cinza. Nuvens enferrujadas aninharam-se nos meus braços, a cidade prisão parecia velar o palhaço em litígio com a graça do riso. Sobre a mesa papeis rabiscados, traços quase apagados do que fui. O antiamor envenenou meus dias com ácida solidão, poeira e teias de aranha no coração fazem sempre o convite ao jardim sem flores que me deito em tempo algum.
No silêncio desenho meus monstros, monstros fragilizados como quem espera o que nunca vai chegar, seca emoção faz transbordar urtigas do amor desejado por mim, doce amor se revela ausente de afeição, calo, nada há além da escuridão desse quarto. Poesia de única voz, amor de um único coração, sexo sem razão.
Evito o constrangimento da falsa felicidade, da palavra ausente de sentido, da busca pelo que me nega mesmo não sabendo da minha existência, meu corpo áspero devora a si mesmo neste inverno em sol quarenta graus do nordeste, senzala das paixões, eu pássaro voo cego pelo ninho sem vida.
Vivo neste aquário de águas ácidas, do lado de fora a alegria da luz, aqui estático desejo apenas meu peito bater coração junto com o amor que liberta.

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