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Carta a Mariana

Ontem à noite quando colhemos as últimas estrelas você parecia doce e gentil, estrelas eram suficientes para nossas vidas beneditinas, mas veio o dia e com  ele o sol, infame sol e apagou nossas estrelas, você se revelou áspera e amante de guilhotinas, cortou o que tinha de ser cortado. Voltei para casa, dormi dias e noites, nunca mais olhei para o céu.

Carta a Mariana II

Hoje pela tarde tive febre, consumi remédios em copo de água gelada, há algumas dores elegantes, dessas que nos mostra a morte e morte nos da uma banana como quem diz: sofra mais um pouco miserável.

Carta a Mariana III

Você me ensinou que o melhor lugar do mundo é o lugar das decepções que sem ele somos sempre essa inocência tola, a mesma inocência que me fez acreditar no teu gozo singelo ao fim da tarde.

Carta a Mariana IV

Hoje encontrei em páginas já amareladas, guardado dentro de um livro essa poesia “Mariana é linda como quem foi feita para mim”. A autoilusão poética é a menos sentida.

Carta a Marina V

Vi na TV que em sua cidade há framboesas e acácias, em Santo Amaro havia acácias na margem do rio, todas mortas como são mortos teus sentimentos por mim.

Carta a Mariana VI


Fim

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"A felicidade é uma arma quente”

Eu que nunca saio do meu lugar exílio, imagino como o mundo deve ser lindo. Estou tão fantasma em Santo Amaro que me considero um prisioneiro condenado a devorar-me sem piedade e pouco a pouco ir morrendo de tantas angústias que não há sol a iluminar tanta escuridão.
Você descobre que está ficando para trás quando todos da sua geração foram embora. Quando esses seus amigos voltam à cidade e você só fala com eles do passado é sinal também que a amizade já era, ficou presa em algum lugar desse mesmo passado. Nem eles e nem você cabem mais na vida um do outro.
Acostumar-se com migalhas de felicidade, com aparente segurança da rotina é um passo certo para pararmos no tempo, para voltado às pequenas coisas nos tornamos bobos de uma corte morta há tempos.
Torna-se um monumento não é bom, se isso acontece quer dizer que mesmo você estando vivo, todos vão considerá-lo morto. Tenho a impressão que a natureza só mata alguém quando esse alguém já não interfere nem para o bem nem para o mal na vida…

Carta para daqui a 50 anos

Hoje é sábado, 29 de junho de 2013, São Pedro, últimos dos santos juninos, aqui perto em São Francisco, vai ter show “grátis” do Chiclete com Banana, claro que não vou, tem gente em excesso de suposta felicidade e acho um saco tanta gente feliz junta por quase nada, não que eu seja triste, mas a minha felicidade repousa na linha do horizonte, não se resume a uma multidão insana pulando e gritando: “chicle...tê!!!! Em 2063, o maior plano é tá vivo, curtindo minha velhice e ouvindo as histórias da minha filha, ler essa carta nem que seja com uma lupa daquelas de Sherlock Holmes, talvez olhe para uma foto minha de hoje e diga: elementar, meu caro, tudo no fim deu certo. Não pense, eu de hoje, que meu sonho é só envelhecer, há o recheio, como de um sanduíche que comi certa vez e daria para alimentar um uma fila inteirinha de pau de arara, pau de arara eram caminhões que certamente devem ter levado muita gente minha para São Paulo, gente que por lá trabalhou duro e morreu da mais profunda…

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