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A fé dos dias

Cândido Portinari 
Quando pedia dinheiro ao meu pai para comprar revistinhas de Mauricio de Souza e discos (não necessariamente pelas músicas, mas essencialmente pelas letras, a poesia me chegou primeiro pelas letras de músicas) ele teve a sensibilidade de entender que nem só de jogar bola ou bolinha de gude se vivia uma infância ou adolescência.
Minha mãe com suas inquietudes trouxe para mim a poética da vida, a vida na sua forma mais apaixonada, me ensinou que vida sem causa não é vida é tédio. O que parecia improvável aconteceu, ser “letrado” e educado culturalmente por quem nunca pisou os pés em uma escola.
 A escola oficial me ensinou as letras, mas a base veio de casa, a escola me ensinou geografia, ordenar pensamentos no papel, convivência em grupo, como lidar com competição, a responsabilidade de fazer parte de um grupo social não familiar, mas a base de tudo veio da sensibilidade dos meus pais, o modo como eles liam o mundo foi fundamental para mim.
Em casa havia uma pedagogia natural, envolvia trabalho, ordem e a recompensa era ganhar minhas revistinhas e discos, pensava eu, mas estava enganado, a maior recompensa era aprender a lidar com emoções e principalmente vive-las sem inundar pessoa alguma com elas, não se estabelecia um controle emocional, nada disso, mas se aprendia que o outro não era o meu mundo e por isso mesmo viver com outras pessoas exigia cuidados e coerência nesta vivência, às vezes dava certo, às vezes não, mas no fim tudo deu certíssimo.
Às vezes descobrimos de maneira sutil o quanto somos ou fomos felizes, o tempo vai passando, voltamos cada vez mais para esse dentro no qual só cabe nós e nossas emoções, um sentimento de dever comprido pouco a pouco vai pintando as cores desse tempo passado em toda sua alegria e felicidade.
A grande lição dos meus pais foram me ensinar que amar pessoas não é o mesmo que amar coisas, muitas vezes pessoas se aproximam de nós e nos tratam como coisas, como pontes para seus objetivos e quando isso acontecia ou acontece comigo a pedagogia familiar sempre estava por perto para não deixar que além de me fazer “coisa” usasse pessoas como coisas também.
Há amizades “diário oficial”, há sexo “diário oficial”, há até lampejos de amor “diário oficial”, ou seja, coisas que vêm e vão como decretos, mas se você tem laços sinceros com os seus pais ou amigos não há decreto ou fim de decreto traga litígio entre amor e vocês.
Viver para além de si sem se perder no outro, ter carinho para com todos os seres da natureza, ser duro quando tiver que ser, dizer não quando tiver de ser dito, mas nunca perder em tempos de humanidade a alegria de ser e viver pessoa.
Não guardar rancor de pessoa alguma, simplesmente afastar de quem ou de que nos faz mal, desejar, mas nunca se desesperar para ter ou se sentir menor porque não se pode ter, ter sua própria realização pessoal com o divino, respeitar as fronteiras de cada um, ser justo mesmo que esse “ser justo” signifique a própria queda pessoal, ter em casa sempre um porto seguro, ser emoção sem nunca perder de vista a lógica que nos tenta fazer racional, ter medo sem perder a coragem, ter no amor o contraponto ao ódio. Pedagogia familiar para viver para além de casa sem nunca esquecer o caminho de volta.

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