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Eu profundo e outros cactos

Li na apresentação do livro: “Fernando Pessoa O Eu profundo e os outros Eus” da Pocket Ouro, pág. 28 o seguinte texto: “o tipo de uma quase incomportável preponderância do espírito, lúcido, imaginativo e triste, enleado de angústia e solidão, enormemente insatisfeito e, no entanto parado à tona de qualquer realização mundana satisfatória.” Isso foi dito sobre personalidade de Fernando Pessoa e não sobre sua arte, por isso ouso a dizer aqui que é também uma perfeita descrição da minha personalidade.
Às vezes há de se pensar que alguns sujeitos estão sempre como no primeiro dia do seu nascimento entre a dor e alegria, inconstantes como a noiva que deseja o noivo, teme a primeira noite que pode ser seu prazer, mas também pode ser sua agonia em descobri que amor idealizado é amor subvertido pela vivência concreta.
Quem vive encarcerado entre a realidade e as aspas de quebrar vidraça pode correr o risco de se transformar em uma ficção de si mesmo, como disse hoje a uma amiga. Talvez seja esse o meu maior medo, ser uma vida romance de um único personagem.
Ora bolas, quero é purpurina sobre minhas dores medievalescas, algum sentido e andar pelas ruas da Purificação sem o medo de renascer espinho a cada dia neste coração poeticamente canibal.
Bebemos aos vivos, os mortos não podem mais se embriagar, devoram-se as horas e não ao tempo, quarenta dias como uma única e grande idade média sem igreja ou deus, mas de mãos dadas com o diabo que nos traz a luz da alegria.
Hoje meu corpo é divagação, grandeza concreta de que não se pode ser muitas coisa além da poesia vasta do nada, quero é o corpo da mulher desalmada que dança ciranda sobre a pele masculina sem ação. Rosa roxa do meu carnaval, vem sambar quando tudo é vento, pingos de chuva sobre o telhado, eu amor dos dias nos quais sou todo meu como o céu é do acaso.
O corpo é flor que se abre para a língua a se afogar no sal para salvar-se da sede, porque o gosto do “amor” é salgado, bebe-se a alegria tremula nestas vogais quase mudas, roça-me a pele entre suor e saliva a se permitirem do corpo o desejo profundo do gozo.
O ninho farpado em pelos nos diz o quanto estamos na emoção de sermos um no prazer devorador de dois, a cama não é fronteira para nada, a cama é o mundo que nega a alma e profana a delicadeza da carne, quem se entrega ao ninho farpado não busca delicadeza, busca ter e se permitir corpo e desejo.
Sinto teu cheiro na água a correr pelo meu corpo, nos lençóis quase pelo do meu corpo. Olhos devoradores, estou tão em você que já não me reconheço quando ao meu lado o vazio me estende a mão, teu corpo sou eu na beleza de dentro de você ser completo. O cheiro forte e puro no ar desse dia é o teu cheiro devasso, romântico e lascivo, me excita o fogo do teu ri nu convite para duas carnes tornarem-se cúmplices dessa alegria canibal.
Acalma-me a alma como uma valsa antiga em gramofone, anjo virtual dos meus dias em sol e solidão deste recôncavo de tantas tristes ilusões. Não há música de Amado Batista “Por essa madrugada/ a fora / deu beijo no amanhecer/”, mas há sonetos medievais e folhas secas sobre meu peito nu para  dias longos e noites curtas.
Não é tristeza ou alegria, apenas se é o que se nasceu para ser, como bem disse as três irmãzinhas cantadoras cegas da Paraíba no inesquecível documentário “A pessoa é para o que nasce”. Então nascei para a eterna possibilidade de ser e ao fim esperanças servidas no tempo finito do esquecimento.
Hoje minhas emoções são poeiras, vêm de longe, nem sexo ou amor, apenas emoções repletas de poeiras, mas são emoções. Há certa elegância em está sempre para ser, o horizonte mesmo em seca caatinga tem algo de belo, mesmo entre emocionadas poeiras e livros de Fernando Pessoa lidos na madrugada de sempre.

ediney-santana@bol.com.br

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