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Febre

C.Senador Pedro Lago com a amendoeiras ao lado, meu tempo feliz
Não me traga remédios, hoje quero a febre em vinho tinto de fel e amêndoas, amêndoas daquelas do pé que fica perto do Colégio Senador Pedro Lago, são amargas como todas amêndoas, mas me lembram a infância em que a febre era só sintoma de uma gripe tola. Às vezes olho pessoas na rua e penso que algumas nunca deveriam morrer, eu não, devo morrer todos os dias, perder as cascas como uma barata desses de rua, até não sobrar mais nada, nem um verbo teimoso na ponta da língua estúpida.
Há muitas maneiras de cometer suicídio, uma delas é cultivar dores, dor sobre dor, ir provocando inflamações no corpo até que um dia alguém nos encontre deitado na cama, olhos ao nada. A humanidade não ta nem aí para essas coisas que morrem, mas algumas pessoas fariam festas, farão festas.
Deito e olho para estrelas, tão distantes e tão próximas, nas estrelas há a escuridão da luz e o absoluto do silêncio, o medo não tem sentido algum quando se está decidido pouco a pouco escalar astros e morrer na escuridão das estrelas.
O que deveria nos fazer gente é a não crença, mas insistimos nisto de sociedade e de bons sentimentos, deus é nossa carta coisa mais exata, ser pessoa é possível só quando não existimos mais para nossas cascas e vernizes.
Às vezes penso que morri há muitos anos e tudo não passa do limbo em que estou preso entre minha casa e a Praça da Purificação, imagino que todos são como eu: um rascunho fantasma, um mundo sem dor, moral ética ou razão, um mundo que sempre começa meia noite e termina às seis da manhã.
O absurdo da vida é essa ilusão de que se pode ser feliz sozinho, o absurdo da vida é acreditar na sinceridade virtual das pessoas ou nas suas mentiras reais e concretas, como diz Jorge Boris: "acreditar que os outros são sempre a boa intenção e não entender que o outro também pode ser o sórdido", nos vermos sempre como o atraso e o outro salvação nos condena a sempre errar.
Inflamação sobre inflamação, alma e ossos, tempestades pessoais, não ficar além da mãe, ter nos olhos a emoção necessária para andar, abraçar e não ser um quebra ossos, confiança não se perde duas vezes, confiar é se permitir no outro a alegria da vida, fora isso apenas baratas e suas cascas.
Nada nunca é o outro, o erro vem de mão única. Hoje o cemitério estava bonito, cheio de flores e pessoas com suas culpas inocentadas por não serem de fato mais pessoas. O tempo é meu deus e a ilusão mais sentida.
Tenho flores, amêndoas, jornais, dentes sem risos, amores sem amor, orquestra sem maestro e febre, nada é mais castigo que febre rasgando a alma e nunca mais ouço canções francesas e nunca mais serei o melhor amigo de pessoa alguma, meu melhor amigo será sempre arme farpado na ferrugem dos dias sem paz.
Fogos na rua, gritos de crianças, cabelos ao vento, violão que não toca mais, minha gata cada vez mais magra e triste, meus dias cheios de poeira, nascimento para o parto das dores: coração ruim, estômago ruim, sexo sem sexo e uma alegria que só há quando olho para a escuridão das luzes das estrelas.
Escutei hoje U2, with or without you, cinquenta e cinco vezes e não bebi nada além dessa saliva áspera, canta canta e não sinta compaixão, às vezes flores nascem no esgoto, às vezes não, nada dói quando além nada há para doer, sejamos breves como borboletas no jardim, mas sem machucar ninguém, não machucar ninguém, a única coisa realmente sincera que o Cristo nos ensinou: amém.





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